quinta-feira, 10 de abril de 2008

Ainda há quem se lembre dos ex-combatentes!

O Jornal “Correio da Manhã”, de 9/4/2008, publicou um artigo relacionado com os ex-combatentes, título “Deixar para trás” – “ao SABOR do VENTO”, da autoria do gestor Rui Marques, que tocou num dos pontos mais sensíveis da actualidade “os ex-combatentes”, que transcrevo:

“AQUELES QUE COMBATERAM NAS GUERRAS COLONIAIS FIZERAM-NO AO SERVIÇO DO SEU PAÍS. NÃO PODEM SER ABANDONADOS À SUA SORTE.

Sou de uma geração que já não viveu a Guerra Colonial. Não tenho, por um lado, experiências traumáticas de familiares que por terras de África tivessem perecido nem, por outro lado, à minha volta se viveram radicalismos ideológicos de qualquer cor, na discussão sobre as razões de ser desse tempo. Talvez por isso, beneficio – creio – de alguma distância crítica em relação ao tema dos ex-combatentes e, porventura, um olhar desapaixonado que permite maior objectividade.
E que se vê desse posto de observação? Acima de tudo, descobre-se esquecimento que é das formas mais duras da injustiça. Emerge, então, uma sensação de desconforto pela forma como, enquanto comunidade e País, nos portámos em relação a estes homens. Chega mesmo a tocar a vergonha.
Muitos dos ex-combatentes e suas famílias pagam ainda hoje uma factura muito elevada, no corpo e na mente, em consequência dessa experiência difícil. Os fantasmas da guerra não os deixam descansar. E enquanto sofrem o peso dessa herança, não sentem dos seus compatriotas e do Estado que serviram um reconhecimento suficientemente condigno, sem aproveitamento ideológico, com o respeito que merecem.
E onde radica parte dessa falta de respeito? Em grande medida, na confusão lamentável entre o julgamento ideológico de um regime político e a condenação ao esquecimento dos que, sem dolo, serviram debaixo de uma bandeira. Não há erro maior.
Quem combateu nas ex-colónias portuguesas – na sua esmagadora maioria – não o fez de livre vontade. À alternativa da deserção, muitos entenderam dizer não, por considerarem ser uma traição aos seus. Outros, mais prosaicamente, não conseguiram partir para o exílio a tempo. Restou-lhe então receber a guia de marcha e partir para o mato, passando a experimentar “aquele inferno de matar ou morrer”.
Aqueles que combateram nas guerras coloniais fizeram-no ao serviço do seu País, com maior ou menor convicção, executando uma política da qual não eram autores nem co-responsáveis. Não será necessário recordar que não vivíamos em democracia e a formulação da decisão política não resultava da voz do povo. Salvo eventuais autores de crimes de guerra, cometidos nesses anos, e que mereceriam o julgamento que a própria disciplina militar prevê, os ex-combatentes são, acima de tudo, cidadãos portugueses que obedeceram, com risco de vida, a um desígnio político do regime vigente. Foram servidores do País e assim devem ser tratados. Sem subterfúgios, nem equívocos.
O gesto de reconhecimento aos ex-combatentes não equivale, como alguns gostariam, a branquear os erros do regime anterior, a apelar a um saudosismo bacoco ou a ir mais longe para territórios racistas e neo-colonialistas. Nada disso. Trata-se somente de não abandonar os nossos homens, sobretudo depois do combate. De não os deixar desaparecer na névoa do esquecimento. Um povo digno não os deixaria para trás.”


O meu comentário:
Não resisti!
Publiquei o artigo na íntegra.
Nada mais a propósito.
Que mais poderei dizer?
Dizer, talvez, BEM-HAJA Senhor Jornalista. Ainda há quem tão abnegadamente defenda os desamparados ex-combatentes. Nós sabemos que os velhos combatentes constituem para a sociedade em geral um peso ou qualquer coisa que já não rende, pouco vale e relativamente quase não interessa, salvo, claro está, em determinados momentos da vida nacional (períodos eleitorais). Alheiam-se deles as próprias estruturas a que pertenceram e, com o tempo, a doença pós-traumática, a inflação, etc., leva-os à míngua, olvidado também por outras instituições.


Curiosamente, o mesmo Jornal, “Correio da Manhã”, numa das suas edições de 2007 (que já não sei precisar o dia), referia:

“Se servistes a Pátria e ela vos
foi ingrata, vós fizestes o que
devíeis, e ela o que costuma”.

Por Último

Passados que foram quase 48 anos da ida da CCaç.115 para Angola, os sobreviventes recordam cada qual à sua maneira, de quando em vez, os principais episódios da guerra colonial dos anos “60/70”.
Ensinaram-nos a sentir África e hoje percebê-la. Quanto às próximas gerações, esse entendimento será só o que lhes for transmitido pela História, quantas vezes distorcida.
Deste modo fomos os últimos a viver um modo de vida que desapareceu para sempre, deixando apenas em alguns, nomeadamente nos residentes das ex-colónias, a saudade, e noutros (os mobilizáveis da Metrópole) o alívio de saber que esses tempos passados não voltarão mais.
Do meu ponto de vista, o passado de um povo não se destrói e é melhor ou pior, o alicerce do presente.
Apesar de todas as vicissitudes e de acidentes de percurso, tanto os povos que foram colonizados como os colonizadores não deverão guardar quaisquer rancores entre si, nem fomentar ódios mas sim respeitar-se mutuamente, olhar para o futuro com esperança e fé e pugnar para que a paz entre os homens seja uma realidade e, de mãos dadas, contribuir para a dignidade humana.
Temos que pôr um ponto final e definitivo nas cicatrizes dos possíveis ressentimentos que ainda persistem.
Nos dias de hoje em que o espectro da guerra ainda paira sobre o planeta Terra, parece oportuno parar para reflectir não apenas sobre a sua legitimidade ou consequências, mas também sobre a origem dos conflitos e a eficácia dos meios violentos na sua solução.
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"Só há uma guerra que temos a certeza de ser total e permanentemente justa: é a guerra contra a miséria.
O homem só se salva a partir do momento em que se torna salvador."
Padre Pierre - Nova Gazeta , Montijo, 03 Jan 03.
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O regresso e um trauma!!!
Sem que tenha trazido de Angola qualquer peso de consciência relativamente aos tempos de guerra, durante os 8 anos seguintes, fui "assaltado" com alguma frequência, durante a noite, por sonhos e pesadelos, quase sempre ligados a cenários que o subconsciente gerava, acordando inúmeras vezes em sobressalto.
Notava que existia em mim, alguma ansiedade e um conjunto de imagens que perpassavam no espírito durante o sono, que experimentava diversos altos e baixos, de duração variável, numa só noite.
Contudo, suportei este acontecimento emocionalmente doloroso e prejudicial sem ter sido submetido a qualquer tipo de vigilância médica.
Cerca de 8 anos mais tarde, voltei a Angola, numa outra missão. Parece ter sido em boa hora porque os tais conflitos psíquicos que até então me atormentavam, desvaneceram-se rapidamente, até desaparecerem, sem que se tenha operado qualquer alteração em termos comportamentais que justificasse tal tipo de anormalidade psíquica.
Como outrora, voltei, desde então, a acordar revigorado de manhã!

A Mensagem do 2º Comandante

Carta do 2º. Comandante da ex. Companhia “115”:

“(Oeiras, 9 de Maio de 2006
Meus Caros amigos
Recebi a vossa carta que muito agradeço, pois relembrar a nossa odisseia em Angola é sempre um acto de muita-estima e cidadania.
Para além disso, é uma atitude de saudade e de são convívio que só nos enaltece. A sua intensidade amplia-se de tal maneira que só tem explicação entre aqueles que viveram e conviveram no ambiente de guerra porque passamos.
Mas infelizmente e pela 2ª. vez não vou poder estar convosco. Como sabeis, passo uma boa parte do ano em Londres aonde tenho …
E o mês de Maio é um daqueles em que tenho mais dificuldades em … É pena porque gostaria de passar o 28de Maio de 1961 convosco. Veremos se será na próxima.
Entretanto desejo-vos um excelente convívio da “115”. Aqui recordo os que por força do destino não voltaram. Que Deus os guarde e a Pátria não os esqueça.
Para os que estão um grande abraço de amizade com votos de boa saúde e felicidades.
Para os que já não gozam de boa saúde vai também uma saudação muito especial deste velho “Tenente” que durante o seu tempo de serviço na “115” sempre vos acompanhou nos bons e maus momentos.
Um abraço da maior amizade
E solidariedade do
“Tenente” Ass. Cipriano Pinto)”


Nota: “O n/Tenente”, hoje Tenente General, na reserva, apenas por duas vezes não pôde estar presente nos eventos já realizados. Numa das vezes e aquando era Comandante da Região Militar do Sul – Évora, não obstante a data do almoço ter coincidido com o dia da visita do Senhor Secretário da Defesa ao seu Quartel-General, logo que pôde “libertar-se” da visita, deslocou-se ao local do convívio onde nos foi dar um abraço.

A Mensagem do Comandante

Mensagem do Comandante da Companhia de Caçadores “115”:

“Sempre constituiu o meu maior orgulho estar convosco em todos os momentos difíceis ou alegres que vivemos na guerra, ao serviço de Portugal e dos Portugueses.
Tenho o maior desgosto de não estar convosco neste convívio de amizade em que recordamos a caminhada atlântica que de Portugal nos levou a Angola. Compensai a minha tristeza vivendo com toda a fraternidade as recordações dos últimos 33 anos.
Recebei um grande abraço e a certeza de que no próximo ano estarei convosco.
O V/Cap. Tomé Falcão
Com amizade
Brigadeiro Alípio Tomé Falcão”.


Nota: Esta mensagem do “N/Capitão”, hoje Major General, na reserva, reporta-se ao almoço de confraternização que teve lugar em Sines no dia 28Mai1994. Foi lida no acto do evento pelo ex. Cabo, Valadas Horta.
!!!
No dia 26 de Maio de 2008, o meu amigo NOCA, no Blog
Publicou:
"EVOCAÇÃO - HOMENAGEM
Morreu o nosso Comandante de Companhia! Notícia confirmada!
Homem dotado de grandes qualidades de liderança baseada em princípios muito definidos e aceites, foi para todos nós, um guia que seguimos, durante dois anos, em condições e tarefas muito difíceis, que levámos a bom termo, sob a sua direcção. Aqui deixo uma foto em que ele no alto do monte N'ZOA, junto a Quicabo, procedia a uma observação da região, planeando operações que iríamos levar a efeito."
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Em "comentários " do Blog CC 115
MVHorta disse:
"Camaradas da CC 115!
Inclinemo-nos em evocação de saudade e respeito, perante a memória do nosso COMANDANTE "Capitão", Alípio Emílio TOMÉ FALCÃO.
À Família enlutada, Dona Lola (esposa) e Maria José (filha), sentidas condolências".

Os nossos almoços de confraternização

Nos dias dos reencontros parece termos a sensação confortável de quem regressou a casa. Ao nosso lado está sempre um amigo!
O Fernando da Silva Cardoso (ex-condutor auto) e o Vítor Hugo Simões Sá (ex-Cifrador), têm sido incansáveis na realização destes eventos.
Destaco ainda outros colaboradores: António Nobre de Campos (NOCA) ex-Alferes; Durval Prata Ferreira (ex-condutor auto); Abílio de Azevedo Gomes (ex-enfermeiro); o ex-furriel, João Neves San-Bento de Sousa (No evento de confraternização que se realizou nos Açores, de 26 a 30Mai2004. É que este nosso grande amigo é natural dos Açores e tem comparecido a todos os almoços de confraternização da “115”); entre outros. Eu também já colaborei.
Só lhes peço o seguinte: Não desistam! Cá estamos para colaborar.
Manuel Valadas Horta - ex-1º. Cabo Radioelegrafista
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Breve historial dos almoços de confraternização
Espantoso! Como o tempo passa!
É sabido que a passagem à situação de disponiblidade dos ex-combatentes do Batalhão de Caçadores 114, em Agosto de 1963, iria trazer problemas de emprego para os ex-militares, porque abandonados e desiludidos teriam que enfrentar no imediato a dura realidade da vida civil, a fim de retomarem o percurso interrompido.
Uns refugiaram-se na emigração, nomeadamente para França, Alemanha, Países Baixos, Suíça, Austrália, Brasil, etc. Na França o problema de mão-de-obra era mais generalizado e o acesso mais fácil e propício à emigração clandestina, enquanto na Alemanha e nos Países Baixos o nível de mão-de-obra foi sempre mais especializado. Outros concorreram e incorporaram-se nas Forças de Segurança e outros conseguiram trabalho numa ou noutra empresa. Enfim, deixaram as regiões onde nasceram e viveram até então, para se irem instalar noutras zonas, temporária ou definitivamente, na busca de emprego que lhes garantisse um salário permanente, que fizesse face às necessidades reais. Quase se diria que foi um autêntico êxodo de saída do seu torrão natal, principalmente para os naturais da província.
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Passados que foram aproximadamente 28 anos, após o regresso de Angola, realizou-se em Gaia, no dia 23Jun1991, o primeiro encontro do BC 114, organizado pela CC 117 e ao qual compareceram alguns (poucos) ex-combatentes da CC 115.
Entretanto um grupo de três elementos constituído pelo Fernando da Silva Cardoso, pelo Vitor Hugo Simões Sá, e por mim, Manuel Valadas Horta, todos residentes na zona da Grande Lisboa, decidiu constituir-se em comissão promotora para realização do primeiro almoço de confraternização da CC 115, o que não foi nada fácil devido ao facto da relação nominal existente na EPI e à qual tivemos acesso, se encontrar completamente desactualizada quanto a moradas, motivo por que nos levou imenso tempo até conseguirmos alguns endereços. Contudo, ainda conseguimos localizar sensivelmente uma centena de ex-colegas, nada mau, atendendo a que a CC 115 tinha cerca de 170 homens.
O primeiro encontro dos ex-combatentes da CC 115, teve então lugar em Sines no dia 28 de Maio de 1994, ou seja, 33 anos depois da data do embarque para Angola. O Durval Prata Ferreira, fez parte da Comissão deste 1º Almoço de Confraternização por residir em Sines e de ter proposto que o evento ali se realizasse.
Ao primeiro contacto, no dia do evento, alguns ex-companheiros não se reconheciam uns aos outros. Aqueles amigos, estavam velhos, cheios de rugas, com alguns cabelos brancos, uns carecas, outros com discretas calvícies e a ficarem tendencionalmente obesos. Entretanto no meio da amena cavaqueira que se lhe seguiu, lá aparecia mais um, a seguir outro e era com entusiasmo e surpresa, que o grupo que se formara, quase em uníssono, exclamava: "ah, olha o F., lembras-te dele? Aka! Nunca mais o tinha visto". Ali, recordam-se alguns episódios da outra margem do fosso do tempo!
O Jornal "Litoral - Alentejano", de Jun1994, presente no evento, referiu (a pedido do Durval), o seguinte:
"..........o pedido que atendemos com todo o gosto, de divulgação de um poema colectivo, com esta beleza:
Mãe
Mesmo daqui estou ouvindo os teus lamentos
Eu gosto tanto de ti, que sofro os teu sofrimentos
Mãe
Vem beijar-me minha querida
Que eu prometo voltar com vida.
Escrito num dia especial para os seus colegas de então e dedicado a todas as mães que de 61 a 74, tiveram seus filhos na Guerra Colonial.
Memórias que não esquecem e que é importante não deixar esquecer".
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Transcrição de um artigo do ex-Furriel Miliciano, João San-Bento
"Todos Tínhamos 20 Anos
A 28 de Maio de 1961, foi o dia da largada do Niassa, a caminho de Luanda.
Fomos a bordo, além do Batalhão 114, onde se incorporava a CC 115, num total de 3 300 homens de diversas unidades militares. Era a hora do - para Angola depressa e em força.
Foi uma viagem de 11 dias, com um dos motores do navio avariado.
Nas instalações dos soldados, viviam-se as piores condições de alojamento. Estive de Sargento de Dia à Companhia, logo no primeiro dia de viagem e verifiquei pessalmente que, nalguns porões onde estavam instaladas muitas "tarimbas", não se conseguia respirar. A solução foi trazer os colchões para o convés do navio e terminar a viagem ao ar livre.
Já no regresso, a situação foi bastante diferente. Era o Vera Cruz, muito melhor, mas mesmo assim tivemos um gravíssimo problema, com uma maionesse perdida, no "rancho" dos soldados.
No entretanto, durante a estadia em Angola, passamos por lugares como Luanda, Caxito, Quanda-Maúa, Lifune, Quicabo, Balacende, Beira-Baixa, Cana-Cassala, nomes e locais que nenhum de nós pode esquecer, foram bem regados de suor e sangue, dos dois lados, do nosso e do deles. Coisas que custam a recordar.
No Leste, as anharas, o rio Zambeze, Cazombo, Lumbala, Caianda, Calunga, são também lugares inesquecíveis.
Aqui os combates eram quase nulos, mas das distâncias nem se fala.
A área era do tamanho de Portugal Continental e nós eramos apenas cerca de 170 homens.
Os rádios de pouco serviam, tais as distâncias e a espessura do mato.
Depois da chegada a Lisboa, 26 meses após a partida, dado que sou dos Açores, ainda esperei três semanas por um navio que me trouxe a casa, na minha Ilha de São Miguel. O exército não pagava passagens de Avião.
Passaram-se muitos anos e como sou de longe, raramente encontrei ou soube do paradeiro de algum camarada.
Em 1995 recebi um telefonema do Furriel Celestino Coelho, do Boieiro e do Azevedo Gomes, avisando-me de um próximo encontro da CC 115. Vibrei de alegria.
Foi em Sines, esse primeiro encontro.
Comovi-me ao encontrar camaradas de armas, com quem vivi tanto tempo e em tão difíceis condições, onde o medo e a solidariedade não têm comparação, com nada que tenhamos vivido.
Quer os nossos equipamentos, quer as condições que encontramos, hoje podem parecer ridículas. Mas foi assim que passamos aqueles 26 longos meses.
Penso mesmo que muito poucos exércitos, naquelas condições, conseguissem fazer melhor, lembram-se que nem tabaco ou selos de correio existiam?
O que mais me custou, nesse primeiro encontro de Sines foi, por um lado, não reconhecer alguns daqueles com quem mais convivi e por outro lado verificar a falta de tantos outros que, pelos mais variados motivos não puderam estar presentes, ou até já não pertenciam ao mundo dos vivos.
Passados todos estes anos, tenho a honra de poder dizer que, apesar de tudo o que fizemos, muito de mau e também muito de bom, somos homens normais. A vida de um jovem de 20 anos não pode deixar de ter sido afectada, pelos combates, as mortes, os feridos, os ataques, as emboscadas, as carnificinas, mas por outro lado, a camaradagem e o apoio que sempre demos uns aos outros, mesmo estando geograficamente longe, possibilitaram-nos a integração na vida civil normal, apesar de algumas noites mal dormidas e algumas recordações piores.
Somos homens normais, passamos por aquilo que passamos, mas só nos resta esquecer os maus bocados e recordar sempre, sempre, a camaradagem que nos une.
Para todos os camaradas da CC 115 e do BC 114, um grande abraço do João San-Bento
Furriel Miliciano da CC 115"
.
O poeta da "CC 115", ex-Furriel Miliciano, Celestino da Silva Coelho, no 45º. Aniversário do Embarque para Angola, declamou um poema da sua autoria, que passo a referir:
" Faz hoje quarenta e cinco anos que embarcámos
Para Angola, terra por nós desconhecida.
Felizes somos os que regressámos
E continuamos a viver a nossa vida.
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Recordamos, porém, os que tombaram
No cumprimento espinhoso da missão.
Connosco eles já não regressaram,
Mas permanecem vivos em nosso coração.
-
Invocamos para eles a glória
Dos heróis da Pátria imortal,
Honraremos sempre a sua memória,
Como eles honraram o nome de Portugal.
-
E, para vós, irmãos d'armas desde então,
Neste convívio, que esperamos repetir,
Vai o meu abraço pleno de emoção
Desejando-vos as maiores felicidades no porvir.
-
Malveira, 28/Maio/2006
Ass. Celestino da Silva Coelho "
.
Marcha Militar da Companhia de Caçadores 115 - Angola 1961/63
Somos da 115 tão valorosa
E viemos com altivez
Defender a Pátria extremosa
Neste nobre solo português.
-
Em Angola desembarcámos
Cheios de esperança, fé e ardor:
O inimigo nós destroçámos,
Marchando em frente com todo o vigor.
-
Percorrendo estradas perigosas,
Atravessando selvas escuras,
Nossas almas tão generosas,
Jamais tremeram nessas alturas.
-
O suor e a poeira cobriram,
Nosso corpo jovem e são;
Mas os braços não descaíram
Levando aperradas armas na mão.
-
Para a frente é a ordem gritante,
Lutar, vencer, o nosso ideal;
Cada um de nós é bravo infante,
Para servir a Pátria imortal.
-
Angola, 1961/63
Celestino Coelho - Furriel Milº.
.
Ser Poeta...
-
Ser poeta, é ter na alma
A rima que a vida tem.
Ser poeta, é sentir calma
P'ra ver sempre mais além.
-
Ser poeta, é ter na mente
Um fogo sempre a bulir.
Ser poeta, é ir em frente
E ter sempre p'ra onde ir
-
Ser poeta, é ver o mundo
Por um prisma bem diferente.
Ser poeta, é ter, no fundo,
A rima a ferver na mente.
-
Ser poeta, é ter amor
Às coisas que a vida tem.
Ser poeta, é ter ardor,
Ser capaz de amar alguém...
-
Ser poeta, é olhar a flor
E ver nela a singeleza;
Ser poeta, é ser cantor
P'ra cantar a natureza.
-
Ser poeta, é ser risonho
É seguir em linha recta,
Sempre à procura dum sonho!...
Quem me dera ser Poeta...
-
Lisboa, 02/Nov/1976
Celestino Coelho
-
Durante a Comemoração do 47º. Aniversário do Embarque para Angola:
Poema declamado pelo autor:
...............Companhia de Caçadores 115
...............47º. Aniversário
.
Foi em Maio, mês das flores,
Que para Angola embarcámos.
Com anseios, com temores
Nós fomos, mas regressámos.
.
Ficarão para a História,
Os que pereceram em combate.
Recordaremos a sua memória
Aqui, ou em qualquer parte.
.
Quarenta e sete anos volvidos,
Estamos a confraternizar
E, não deixaremos esquecidos
Os que partiram p´ra não mais voltar.
.
Angola para nós, foi dor, foi sofrimento;
Mas cimentámos lá tanta amizade,
Que me atrevo a dizer, neste momento,
Nos nossos corações pulsa a saudade.
.
Saudade do companheirismo então vivido;
Saudade da juventude já ausente.
Mas, amigos, isso é tempo ido,
Saudemos o dia de hoje, que é presente.
.
Loures, 31/Mai/2008
Celestino Coelho
-
Almoço de Confraternização da CC 115 (30 de Maio de 2009 - Seia)
O N/Poeta "CC 115", ex-furriel miliciano Celestino da Silva Coelho, declamou mais um poema da sua autoria, que a seguir se segue:
"Companhia de Caç. 115
Encontro do 48º Aniversário
.
Cumprimos nosso dever de cidadãos
Nas terras longínquas de além-mar.
Por isso, camaradas, meus irmãos,
Aqui estamos de novo a recordar.
.
Quarenta e oito anos já lá vão,
Sobre a data em que entrámos no "Niassa"
Nos nossos corações reina a emoção
Do reencontro, no dia que hoje passa.
.
Eramos então jovens, com fervor
Sonhávamos já o regresso apetecido
Iríamos enfrentar dias de pavor
Na luta contra o inimigo desconhecido.
.
As terras angolanas palmilhámos
Num sopro de juventude sã e forte.
Hoje, podemos dizer que lutamos
Com firmeza e coragem contra a morte.
.
Deixamos em Angola, fama e glória
Por ter lutado e cumprido um ideal;
Escrevemos páginas para a história
E gritaremos sempre VIVA PORTUGAL".
.
Seia, 30/MAI/2009
Celestino Coelho
.
Almoços de confraternização realizados:
. Gaia - 23Jun1991 - BC 114
. Sines - 28Mai1994 - CC 115
. Mafra (EPI) - 27Mai1995 - CC 115
. Aveiro - 09Jun1996 - CC 115
. Fátima - 27Mai2001 - BC 114
. Sines - 25Mai2002 - CC 115
. S. Pedro do Sul - 31Mai2003 - CC 115
. Açores - 26/30Mai2004 - CC 115
. Lisboa - 28Mai2005 - CC 115
. Malveira - 28Mai2006 - CC 115
. Loures - 31Mai2008 - CC 115
. Seia - 30Mai2008 - CC 115.
Nota: O incansável Vitor Hugo Simões Sá, organizou, sozinho, os 3 últimos almoços.
Parabéns Vitor! O teu trabalho tem sido impecável.

Velhos Companheiros

Para nós, velhos combatentes, aqui também se confraterniza, porque confraternizar não é só ir a um almoço, beber uns copos e contar umas historietas.
É, um pouco mais que isso. É falarmos das picadas que trilhamos através dos mais desencontrados caminhos, do companheirismo que se transformou num espírito de camaradagem e que tem perdurado até hoje.
Aqui (agora!) até dispomos de mais tempo e até do sentimento profundo de quanto Angola influenciou as nossas vidas.
Luanda! Cidade com uma bela baía; é um lugar para se sentir. Não basta contar-lhe a memória e tudo quanto a envolve; a sua marginal é inesquecível, onde colocamos o primeiro pé em terra firme depois de quase 12 dias de viagem no NM Niassa. Enumerar todas as sensações que só África consegue transmitir não é fácil; as recordações daquele clima maravilhoso, o sol escaldante (Angola: Clima Tropical - Duas Estações: Cacimbo "seca" de Maio a Setembro e das Chuvas "mais quente" de Setembro a Maio), o capim no tempo das chuvas, aquele cheiro à terra molhada, as queimadas, os majestosos embondeiros, a delícia das mangas, das bananas e das papaias e ainda!... do camarão do Cacuaco (onde estivemos alojados em beliches sem colchões, lembram-se?), as savanas poeirentas, a selva serrada, o ritmo das batucadas, o famoso peixe fresco das anharas ou chanas, a água pútrida que bebemos, o matar a sede com água de coco (quando os apanhávamos!...), etc. Atravessar o rio Zambeze sozinho numa canoa feita de um troco de árvore, mas mais ainda: na mira dos jacarés! Daquelas terras do fim do mundo. Tudo isto, ficou gravado na gavetinha das nossas memórias.

Cemitério de Luanda - Campas de soldados mortos em combate