quinta-feira, 10 de abril de 2008

Ainda há quem se lembre dos ex-combatentes!

O Jornal “Correio da Manhã”, de 9/4/2008, publicou um artigo relacionado com os ex-combatentes, título “Deixar para trás” – “ao SABOR do VENTO”, da autoria do gestor Rui Marques, que tocou num dos pontos mais sensíveis da actualidade “os ex-combatentes”, que transcrevo:

“AQUELES QUE COMBATERAM NAS GUERRAS COLONIAIS FIZERAM-NO AO SERVIÇO DO SEU PAÍS. NÃO PODEM SER ABANDONADOS À SUA SORTE.

Sou de uma geração que já não viveu a Guerra Colonial. Não tenho, por um lado, experiências traumáticas de familiares que por terras de África tivessem perecido nem, por outro lado, à minha volta se viveram radicalismos ideológicos de qualquer cor, na discussão sobre as razões de ser desse tempo. Talvez por isso, beneficio – creio – de alguma distância crítica em relação ao tema dos ex-combatentes e, porventura, um olhar desapaixonado que permite maior objectividade.
E que se vê desse posto de observação? Acima de tudo, descobre-se esquecimento que é das formas mais duras da injustiça. Emerge, então, uma sensação de desconforto pela forma como, enquanto comunidade e País, nos portámos em relação a estes homens. Chega mesmo a tocar a vergonha.
Muitos dos ex-combatentes e suas famílias pagam ainda hoje uma factura muito elevada, no corpo e na mente, em consequência dessa experiência difícil. Os fantasmas da guerra não os deixam descansar. E enquanto sofrem o peso dessa herança, não sentem dos seus compatriotas e do Estado que serviram um reconhecimento suficientemente condigno, sem aproveitamento ideológico, com o respeito que merecem.
E onde radica parte dessa falta de respeito? Em grande medida, na confusão lamentável entre o julgamento ideológico de um regime político e a condenação ao esquecimento dos que, sem dolo, serviram debaixo de uma bandeira. Não há erro maior.
Quem combateu nas ex-colónias portuguesas – na sua esmagadora maioria – não o fez de livre vontade. À alternativa da deserção, muitos entenderam dizer não, por considerarem ser uma traição aos seus. Outros, mais prosaicamente, não conseguiram partir para o exílio a tempo. Restou-lhe então receber a guia de marcha e partir para o mato, passando a experimentar “aquele inferno de matar ou morrer”.
Aqueles que combateram nas guerras coloniais fizeram-no ao serviço do seu País, com maior ou menor convicção, executando uma política da qual não eram autores nem co-responsáveis. Não será necessário recordar que não vivíamos em democracia e a formulação da decisão política não resultava da voz do povo. Salvo eventuais autores de crimes de guerra, cometidos nesses anos, e que mereceriam o julgamento que a própria disciplina militar prevê, os ex-combatentes são, acima de tudo, cidadãos portugueses que obedeceram, com risco de vida, a um desígnio político do regime vigente. Foram servidores do País e assim devem ser tratados. Sem subterfúgios, nem equívocos.
O gesto de reconhecimento aos ex-combatentes não equivale, como alguns gostariam, a branquear os erros do regime anterior, a apelar a um saudosismo bacoco ou a ir mais longe para territórios racistas e neo-colonialistas. Nada disso. Trata-se somente de não abandonar os nossos homens, sobretudo depois do combate. De não os deixar desaparecer na névoa do esquecimento. Um povo digno não os deixaria para trás.”


O meu comentário:
Não resisti!
Publiquei o artigo na íntegra.
Nada mais a propósito.
Que mais poderei dizer?
Dizer, talvez, BEM-HAJA Senhor Jornalista. Ainda há quem tão abnegadamente defenda os desamparados ex-combatentes. Nós sabemos que os velhos combatentes constituem para a sociedade em geral um peso ou qualquer coisa que já não rende, pouco vale e relativamente quase não interessa, salvo, claro está, em determinados momentos da vida nacional (períodos eleitorais). Alheiam-se deles as próprias estruturas a que pertenceram e, com o tempo, a doença pós-traumática, a inflação, etc., leva-os à míngua, olvidado também por outras instituições.


Curiosamente, o mesmo Jornal, “Correio da Manhã”, numa das suas edições de 2007 (que já não sei precisar o dia), referia:

“Se servistes a Pátria e ela vos
foi ingrata, vós fizestes o que
devíeis, e ela o que costuma”.

Por Último

Passados que foram quase 48 anos da ida da CCaç.115 para Angola, os sobreviventes recordam cada qual à sua maneira, de quando em vez, os principais episódios da guerra colonial dos anos “60/70”.
Ensinaram-nos a sentir África e hoje percebê-la. Quanto às próximas gerações, esse entendimento será só o que lhes for transmitido pela História, quantas vezes distorcida.
Deste modo fomos os últimos a viver um modo de vida que desapareceu para sempre, deixando apenas em alguns, nomeadamente nos residentes das ex-colónias, a saudade, e noutros (os mobilizáveis da Metrópole) o alívio de saber que esses tempos passados não voltarão mais.
Do meu ponto de vista, o passado de um povo não se destrói e é melhor ou pior, o alicerce do presente.
Apesar de todas as vicissitudes e de acidentes de percurso, tanto os povos que foram colonizados como os colonizadores não deverão guardar quaisquer rancores entre si, nem fomentar ódios mas sim respeitar-se mutuamente, olhar para o futuro com esperança e fé e pugnar para que a paz entre os homens seja uma realidade e, de mãos dadas, contribuir para a dignidade humana.
Temos que pôr um ponto final e definitivo nas cicatrizes dos possíveis ressentimentos que ainda persistem.
Nos dias de hoje em que o espectro da guerra ainda paira sobre o planeta Terra, parece oportuno parar para reflectir não apenas sobre a sua legitimidade ou consequências, mas também sobre a origem dos conflitos e a eficácia dos meios violentos na sua solução.
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"Só há uma guerra que temos a certeza de ser total e permanentemente justa: é a guerra contra a miséria.
O homem só se salva a partir do momento em que se torna salvador."
Padre Pierre - Nova Gazeta , Montijo, 03 Jan 03.
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O regresso e um trauma!!!
Sem que tenha trazido de Angola qualquer peso de consciência relativamente aos tempos de guerra, durante os 8 anos seguintes, fui "assaltado" com alguma frequência, durante a noite, por sonhos e pesadelos, quase sempre ligados a cenários que o subconsciente gerava, acordando inúmeras vezes em sobressalto.
Notava que existia em mim, alguma ansiedade e um conjunto de imagens que perpassavam no espírito durante o sono, que experimentava diversos altos e baixos, de duração variável, numa só noite.
Contudo, suportei este acontecimento emocionalmente doloroso e prejudicial sem ter sido submetido a qualquer tipo de vigilância médica.
Cerca de 8 anos mais tarde, voltei a Angola, numa outra missão. Parece ter sido em boa hora porque os tais conflitos psíquicos que até então me atormentavam, desvaneceram-se rapidamente, até desaparecerem, sem que se tenha operado qualquer alteração em termos comportamentais que justificasse tal tipo de anormalidade psíquica.
Como outrora, voltei, desde então, a acordar revigorado de manhã!

A Mensagem do 2º Comandante

Carta do 2º. Comandante da ex. Companhia “115”:

“(Oeiras, 9 de Maio de 2006
Meus Caros amigos
Recebi a vossa carta que muito agradeço, pois relembrar a nossa odisseia em Angola é sempre um acto de muita-estima e cidadania.
Para além disso, é uma atitude de saudade e de são convívio que só nos enaltece. A sua intensidade amplia-se de tal maneira que só tem explicação entre aqueles que viveram e conviveram no ambiente de guerra porque passamos.
Mas infelizmente e pela 2ª. vez não vou poder estar convosco. Como sabeis, passo uma boa parte do ano em Londres aonde tenho …
E o mês de Maio é um daqueles em que tenho mais dificuldades em … É pena porque gostaria de passar o 28de Maio de 1961 convosco. Veremos se será na próxima.
Entretanto desejo-vos um excelente convívio da “115”. Aqui recordo os que por força do destino não voltaram. Que Deus os guarde e a Pátria não os esqueça.
Para os que estão um grande abraço de amizade com votos de boa saúde e felicidades.
Para os que já não gozam de boa saúde vai também uma saudação muito especial deste velho “Tenente” que durante o seu tempo de serviço na “115” sempre vos acompanhou nos bons e maus momentos.
Um abraço da maior amizade
E solidariedade do
“Tenente” Ass. Cipriano Pinto)”


Nota: “O n/Tenente”, hoje Tenente General, na reserva, apenas por duas vezes não pôde estar presente nos eventos já realizados. Numa das vezes e aquando era Comandante da Região Militar do Sul – Évora, não obstante a data do almoço ter coincidido com o dia da visita do Senhor Secretário da Defesa ao seu Quartel-General, logo que pôde “libertar-se” da visita, deslocou-se ao local do convívio onde nos foi dar um abraço.

A Mensagem do Comandante

Mensagem do Comandante da Companhia de Caçadores “115”:

“Sempre constituiu o meu maior orgulho estar convosco em todos os momentos difíceis ou alegres que vivemos na guerra, ao serviço de Portugal e dos Portugueses.
Tenho o maior desgosto de não estar convosco neste convívio de amizade em que recordamos a caminhada atlântica que de Portugal nos levou a Angola. Compensai a minha tristeza vivendo com toda a fraternidade as recordações dos últimos 33 anos.
Recebei um grande abraço e a certeza de que no próximo ano estarei convosco.
O V/Cap. Tomé Falcão
Com amizade
Brigadeiro Alípio Tomé Falcão”.


Nota: Esta mensagem do “N/Capitão”, hoje Major General, na reserva, reporta-se ao almoço de confraternização que teve lugar em Sines no dia 28Mai1994. Foi lida no acto do evento pelo ex. Cabo, Valadas Horta.
!!!
No dia 26 de Maio de 2008, o meu amigo NOCA, no Blog
Publicou:
"EVOCAÇÃO - HOMENAGEM
Morreu o nosso Comandante de Companhia! Notícia confirmada!
Homem dotado de grandes qualidades de liderança baseada em princípios muito definidos e aceites, foi para todos nós, um guia que seguimos, durante dois anos, em condições e tarefas muito difíceis, que levámos a bom termo, sob a sua direcção. Aqui deixo uma foto em que ele no alto do monte N'ZOA, junto a Quicabo, procedia a uma observação da região, planeando operações que iríamos levar a efeito."
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Em "comentários " do Blog CC 115
MVHorta disse:
"Camaradas da CC 115!
Inclinemo-nos em evocação de saudade e respeito, perante a memória do nosso COMANDANTE "Capitão", Alípio Emílio TOMÉ FALCÃO.
À Família enlutada, Dona Lola (esposa) e Maria José (filha), sentidas condolências".

Os nossos almoços de confraternização

Nos dias dos reencontros parece termos a sensação confortável de quem regressou a casa. Ao nosso lado está sempre um amigo!
O Fernando da Silva Cardoso (ex-condutor auto) e o Vítor Hugo Simões Sá (ex-Cifrador), têm sido incansáveis na realização destes eventos.
Destaco ainda outros colaboradores: António Nobre de Campos (NOCA) ex-Alferes; Durval Prata Ferreira (ex-condutor auto); Abílio de Azevedo Gomes (ex-enfermeiro); o ex-furriel, João Neves San-Bento de Sousa (No evento de confraternização que se realizou nos Açores, de 26 a 30Mai2004. É que este nosso grande amigo é natural dos Açores e tem comparecido a todos os almoços de confraternização da “115”); entre outros. Eu também já colaborei.
Só lhes peço o seguinte: Não desistam! Cá estamos para colaborar.
Manuel Valadas Horta - ex-1º. Cabo Radioelegrafista
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Breve historial dos almoços de confraternização
Espantoso! Como o tempo passa!
É sabido que a passagem à situação de disponiblidade dos ex-combatentes do Batalhão de Caçadores 114, em Agosto de 1963, iria trazer problemas de emprego para os ex-militares, porque abandonados e desiludidos teriam que enfrentar no imediato a dura realidade da vida civil, a fim de retomarem o percurso interrompido.
Uns refugiaram-se na emigração, nomeadamente para França, Alemanha, Países Baixos, Suíça, Austrália, Brasil, etc. Na França o problema de mão-de-obra era mais generalizado e o acesso mais fácil e propício à emigração clandestina, enquanto na Alemanha e nos Países Baixos o nível de mão-de-obra foi sempre mais especializado. Outros concorreram e incorporaram-se nas Forças de Segurança e outros conseguiram trabalho numa ou noutra empresa. Enfim, deixaram as regiões onde nasceram e viveram até então, para se irem instalar noutras zonas, temporária ou definitivamente, na busca de emprego que lhes garantisse um salário permanente, que fizesse face às necessidades reais. Quase se diria que foi um autêntico êxodo de saída do seu torrão natal, principalmente para os naturais da província.
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Passados que foram aproximadamente 28 anos, após o regresso de Angola, realizou-se em Gaia, no dia 23Jun1991, o primeiro encontro do BC 114, organizado pela CC 117 e ao qual compareceram alguns (poucos) ex-combatentes da CC 115.
Entretanto um grupo de três elementos constituído pelo Fernando da Silva Cardoso, pelo Vitor Hugo Simões Sá, e por mim, Manuel Valadas Horta, todos residentes na zona da Grande Lisboa, decidiu constituir-se em comissão promotora para realização do primeiro almoço de confraternização da CC 115, o que não foi nada fácil devido ao facto da relação nominal existente na EPI e à qual tivemos acesso, se encontrar completamente desactualizada quanto a moradas, motivo por que nos levou imenso tempo até conseguirmos alguns endereços. Contudo, ainda conseguimos localizar sensivelmente uma centena de ex-colegas, nada mau, atendendo a que a CC 115 tinha cerca de 170 homens.
O primeiro encontro dos ex-combatentes da CC 115, teve então lugar em Sines no dia 28 de Maio de 1994, ou seja, 33 anos depois da data do embarque para Angola. O Durval Prata Ferreira, fez parte da Comissão deste 1º Almoço de Confraternização por residir em Sines e de ter proposto que o evento ali se realizasse.
Ao primeiro contacto, no dia do evento, alguns ex-companheiros não se reconheciam uns aos outros. Aqueles amigos, estavam velhos, cheios de rugas, com alguns cabelos brancos, uns carecas, outros com discretas calvícies e a ficarem tendencionalmente obesos. Entretanto no meio da amena cavaqueira que se lhe seguiu, lá aparecia mais um, a seguir outro e era com entusiasmo e surpresa, que o grupo que se formara, quase em uníssono, exclamava: "ah, olha o F., lembras-te dele? Aka! Nunca mais o tinha visto". Ali, recordam-se alguns episódios da outra margem do fosso do tempo!
O Jornal "Litoral - Alentejano", de Jun1994, presente no evento, referiu (a pedido do Durval), o seguinte:
"..........o pedido que atendemos com todo o gosto, de divulgação de um poema colectivo, com esta beleza:
Mãe
Mesmo daqui estou ouvindo os teus lamentos
Eu gosto tanto de ti, que sofro os teu sofrimentos
Mãe
Vem beijar-me minha querida
Que eu prometo voltar com vida.
Escrito num dia especial para os seus colegas de então e dedicado a todas as mães que de 61 a 74, tiveram seus filhos na Guerra Colonial.
Memórias que não esquecem e que é importante não deixar esquecer".
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Transcrição de um artigo do ex-Furriel Miliciano, João San-Bento
"Todos Tínhamos 20 Anos
A 28 de Maio de 1961, foi o dia da largada do Niassa, a caminho de Luanda.
Fomos a bordo, além do Batalhão 114, onde se incorporava a CC 115, num total de 3 300 homens de diversas unidades militares. Era a hora do - para Angola depressa e em força.
Foi uma viagem de 11 dias, com um dos motores do navio avariado.
Nas instalações dos soldados, viviam-se as piores condições de alojamento. Estive de Sargento de Dia à Companhia, logo no primeiro dia de viagem e verifiquei pessalmente que, nalguns porões onde estavam instaladas muitas "tarimbas", não se conseguia respirar. A solução foi trazer os colchões para o convés do navio e terminar a viagem ao ar livre.
Já no regresso, a situação foi bastante diferente. Era o Vera Cruz, muito melhor, mas mesmo assim tivemos um gravíssimo problema, com uma maionesse perdida, no "rancho" dos soldados.
No entretanto, durante a estadia em Angola, passamos por lugares como Luanda, Caxito, Quanda-Maúa, Lifune, Quicabo, Balacende, Beira-Baixa, Cana-Cassala, nomes e locais que nenhum de nós pode esquecer, foram bem regados de suor e sangue, dos dois lados, do nosso e do deles. Coisas que custam a recordar.
No Leste, as anharas, o rio Zambeze, Cazombo, Lumbala, Caianda, Calunga, são também lugares inesquecíveis.
Aqui os combates eram quase nulos, mas das distâncias nem se fala.
A área era do tamanho de Portugal Continental e nós eramos apenas cerca de 170 homens.
Os rádios de pouco serviam, tais as distâncias e a espessura do mato.
Depois da chegada a Lisboa, 26 meses após a partida, dado que sou dos Açores, ainda esperei três semanas por um navio que me trouxe a casa, na minha Ilha de São Miguel. O exército não pagava passagens de Avião.
Passaram-se muitos anos e como sou de longe, raramente encontrei ou soube do paradeiro de algum camarada.
Em 1995 recebi um telefonema do Furriel Celestino Coelho, do Boieiro e do Azevedo Gomes, avisando-me de um próximo encontro da CC 115. Vibrei de alegria.
Foi em Sines, esse primeiro encontro.
Comovi-me ao encontrar camaradas de armas, com quem vivi tanto tempo e em tão difíceis condições, onde o medo e a solidariedade não têm comparação, com nada que tenhamos vivido.
Quer os nossos equipamentos, quer as condições que encontramos, hoje podem parecer ridículas. Mas foi assim que passamos aqueles 26 longos meses.
Penso mesmo que muito poucos exércitos, naquelas condições, conseguissem fazer melhor, lembram-se que nem tabaco ou selos de correio existiam?
O que mais me custou, nesse primeiro encontro de Sines foi, por um lado, não reconhecer alguns daqueles com quem mais convivi e por outro lado verificar a falta de tantos outros que, pelos mais variados motivos não puderam estar presentes, ou até já não pertenciam ao mundo dos vivos.
Passados todos estes anos, tenho a honra de poder dizer que, apesar de tudo o que fizemos, muito de mau e também muito de bom, somos homens normais. A vida de um jovem de 20 anos não pode deixar de ter sido afectada, pelos combates, as mortes, os feridos, os ataques, as emboscadas, as carnificinas, mas por outro lado, a camaradagem e o apoio que sempre demos uns aos outros, mesmo estando geograficamente longe, possibilitaram-nos a integração na vida civil normal, apesar de algumas noites mal dormidas e algumas recordações piores.
Somos homens normais, passamos por aquilo que passamos, mas só nos resta esquecer os maus bocados e recordar sempre, sempre, a camaradagem que nos une.
Para todos os camaradas da CC 115 e do BC 114, um grande abraço do João San-Bento
Furriel Miliciano da CC 115"
.
O poeta da "CC 115", ex-Furriel Miliciano, Celestino da Silva Coelho, no 45º. Aniversário do Embarque para Angola, declamou um poema da sua autoria, que passo a referir:
" Faz hoje quarenta e cinco anos que embarcámos
Para Angola, terra por nós desconhecida.
Felizes somos os que regressámos
E continuamos a viver a nossa vida.
-
Recordamos, porém, os que tombaram
No cumprimento espinhoso da missão.
Connosco eles já não regressaram,
Mas permanecem vivos em nosso coração.
-
Invocamos para eles a glória
Dos heróis da Pátria imortal,
Honraremos sempre a sua memória,
Como eles honraram o nome de Portugal.
-
E, para vós, irmãos d'armas desde então,
Neste convívio, que esperamos repetir,
Vai o meu abraço pleno de emoção
Desejando-vos as maiores felicidades no porvir.
-
Malveira, 28/Maio/2006
Ass. Celestino da Silva Coelho "
.
Marcha Militar da Companhia de Caçadores 115 - Angola 1961/63
Somos da 115 tão valorosa
E viemos com altivez
Defender a Pátria extremosa
Neste nobre solo português.
-
Em Angola desembarcámos
Cheios de esperança, fé e ardor:
O inimigo nós destroçámos,
Marchando em frente com todo o vigor.
-
Percorrendo estradas perigosas,
Atravessando selvas escuras,
Nossas almas tão generosas,
Jamais tremeram nessas alturas.
-
O suor e a poeira cobriram,
Nosso corpo jovem e são;
Mas os braços não descaíram
Levando aperradas armas na mão.
-
Para a frente é a ordem gritante,
Lutar, vencer, o nosso ideal;
Cada um de nós é bravo infante,
Para servir a Pátria imortal.
-
Angola, 1961/63
Celestino Coelho - Furriel Milº.
.
Ser Poeta...
-
Ser poeta, é ter na alma
A rima que a vida tem.
Ser poeta, é sentir calma
P'ra ver sempre mais além.
-
Ser poeta, é ter na mente
Um fogo sempre a bulir.
Ser poeta, é ir em frente
E ter sempre p'ra onde ir
-
Ser poeta, é ver o mundo
Por um prisma bem diferente.
Ser poeta, é ter, no fundo,
A rima a ferver na mente.
-
Ser poeta, é ter amor
Às coisas que a vida tem.
Ser poeta, é ter ardor,
Ser capaz de amar alguém...
-
Ser poeta, é olhar a flor
E ver nela a singeleza;
Ser poeta, é ser cantor
P'ra cantar a natureza.
-
Ser poeta, é ser risonho
É seguir em linha recta,
Sempre à procura dum sonho!...
Quem me dera ser Poeta...
-
Lisboa, 02/Nov/1976
Celestino Coelho
-
Durante a Comemoração do 47º. Aniversário do Embarque para Angola:
Poema declamado pelo autor:
...............Companhia de Caçadores 115
...............47º. Aniversário
.
Foi em Maio, mês das flores,
Que para Angola embarcámos.
Com anseios, com temores
Nós fomos, mas regressámos.
.
Ficarão para a História,
Os que pereceram em combate.
Recordaremos a sua memória
Aqui, ou em qualquer parte.
.
Quarenta e sete anos volvidos,
Estamos a confraternizar
E, não deixaremos esquecidos
Os que partiram p´ra não mais voltar.
.
Angola para nós, foi dor, foi sofrimento;
Mas cimentámos lá tanta amizade,
Que me atrevo a dizer, neste momento,
Nos nossos corações pulsa a saudade.
.
Saudade do companheirismo então vivido;
Saudade da juventude já ausente.
Mas, amigos, isso é tempo ido,
Saudemos o dia de hoje, que é presente.
.
Loures, 31/Mai/2008
Celestino Coelho
-
Almoço de Confraternização da CC 115 (30 de Maio de 2009 - Seia)
O N/Poeta "CC 115", ex-furriel miliciano Celestino da Silva Coelho, declamou mais um poema da sua autoria, que a seguir se segue:
"Companhia de Caç. 115
Encontro do 48º Aniversário
.
Cumprimos nosso dever de cidadãos
Nas terras longínquas de além-mar.
Por isso, camaradas, meus irmãos,
Aqui estamos de novo a recordar.
.
Quarenta e oito anos já lá vão,
Sobre a data em que entrámos no "Niassa"
Nos nossos corações reina a emoção
Do reencontro, no dia que hoje passa.
.
Eramos então jovens, com fervor
Sonhávamos já o regresso apetecido
Iríamos enfrentar dias de pavor
Na luta contra o inimigo desconhecido.
.
As terras angolanas palmilhámos
Num sopro de juventude sã e forte.
Hoje, podemos dizer que lutamos
Com firmeza e coragem contra a morte.
.
Deixamos em Angola, fama e glória
Por ter lutado e cumprido um ideal;
Escrevemos páginas para a história
E gritaremos sempre VIVA PORTUGAL".
.
Seia, 30/MAI/2009
Celestino Coelho
.
Almoços de confraternização realizados:
. Gaia - 23Jun1991 - BC 114
. Sines - 28Mai1994 - CC 115
. Mafra (EPI) - 27Mai1995 - CC 115
. Aveiro - 09Jun1996 - CC 115
. Fátima - 27Mai2001 - BC 114
. Sines - 25Mai2002 - CC 115
. S. Pedro do Sul - 31Mai2003 - CC 115
. Açores - 26/30Mai2004 - CC 115
. Lisboa - 28Mai2005 - CC 115
. Malveira - 28Mai2006 - CC 115
. Loures - 31Mai2008 - CC 115
. Seia - 30Mai2008 - CC 115.
Nota: O incansável Vitor Hugo Simões Sá, organizou, sozinho, os 3 últimos almoços.
Parabéns Vitor! O teu trabalho tem sido impecável.

Velhos Companheiros

Para nós, velhos combatentes, aqui também se confraterniza, porque confraternizar não é só ir a um almoço, beber uns copos e contar umas historietas.
É, um pouco mais que isso. É falarmos das picadas que trilhamos através dos mais desencontrados caminhos, do companheirismo que se transformou num espírito de camaradagem e que tem perdurado até hoje.
Aqui (agora!) até dispomos de mais tempo e até do sentimento profundo de quanto Angola influenciou as nossas vidas.
Luanda! Cidade com uma bela baía; é um lugar para se sentir. Não basta contar-lhe a memória e tudo quanto a envolve; a sua marginal é inesquecível, onde colocamos o primeiro pé em terra firme depois de quase 12 dias de viagem no NM Niassa. Enumerar todas as sensações que só África consegue transmitir não é fácil; as recordações daquele clima maravilhoso, o sol escaldante (Angola: Clima Tropical - Duas Estações: Cacimbo "seca" de Maio a Setembro e das Chuvas "mais quente" de Setembro a Maio), o capim no tempo das chuvas, aquele cheiro à terra molhada, as queimadas, os majestosos embondeiros, a delícia das mangas, das bananas e das papaias e ainda!... do camarão do Cacuaco (onde estivemos alojados em beliches sem colchões, lembram-se?), as savanas poeirentas, a selva serrada, o ritmo das batucadas, o famoso peixe fresco das anharas ou chanas, a água pútrida que bebemos, o matar a sede com água de coco (quando os apanhávamos!...), etc. Atravessar o rio Zambeze sozinho numa canoa feita de um troco de árvore, mas mais ainda: na mira dos jacarés! Daquelas terras do fim do mundo. Tudo isto, ficou gravado na gavetinha das nossas memórias.

Cemitério de Luanda - Campas de soldados mortos em combate


Homens da "115"

Os homens da “115” viveram emoções, ansiedades, tristezas, incertezas, expectativas, medo, mágoas. Sentiram de tudo nessa grande agitação de sentimentos. É que nem todos regressaram. Esses deram o bem mais precioso que possuíam - A VIDA.
Evoco, desde já, o respeito e a saudade, perante a memória de todos esses nossos companheiros que tombaram ao nosso lado.

Amigos "115"

Camaradas de armas “115”

Olhem para este filme em termos de Kilo”metragem”:

Luanda, Cacuaco, Quifangondo, Caxito, Sassa, Mabubas, Anapasso (Rio Lifune), Quanda-Maúa, Quicabo (Birila, Caxila), Sete Curvas, Balacende, Quissacala, Quipetelo, Beira Baixa.

Úcua, Quibaba (Pedra Boa), Quissacala (Pedra Verde).

"Cada dia que temos
É um dia a mais que merecemos!
"

“……………………………………………………..
E em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana.

………………………… ……………………………….”Os Lusíadas, I, 1 “.



Cacuaco.

"Para recompensar o esforço dispendido!"



Luanda ( no N/M Quanza), Lobito.

Lobito (nos CFB), Catumbela, Maria, Damba Maria, Benguela, Cubal (mais ou menos nesta zona, o comboio, nas subidas, deslocava-se muito "devagariiinho...". Um ou outro companheiro deslocava-se de carruagem em carruagem, descia do comboio em movimento, apanhava algumas peças de fruta junto da linha e, com a ajuda dos colegas subia para uma das carruagens que só transportava viaturas, e, toca a distribuir a fruta pela "malta". Era uma alegria!!! A propósito da deslocação das viaturas no comboio, o meu "bilhete de transporte..." deu para ir sentado (quase 3 dias?) num jeep descapotável que seguia numa das carruagens; só que a minha mala (de cartão... claro!) com as roupas incluindo o blusão, ficou algures noutra carruagem que transportava todas as bagagens. Na zona planáltica, durante a noite, fazia um frio de rachar. Ainda hoje, quando falo de temperatuas baixas, ocorre-me de imediato o frio que passei nessa viagem. Precisamente em Angola!...), Ganda, Caála, Nova Lisboa (Huambo), General Machado(Camacupa), Silva Porto (Kuito), Munhango, Cangonga, Cangumbe, Chicala, Luso (Luena), Léua, Cassai-Gare, Luacano, Mucussueje, Teixeira de Sousa (Luau), Cazombo - Gafaria, Caianda, Lumbala.
Se bem me lembro, o CFB ia do Lobito a Dilolo (ex-Congo Belga). Havia o "Rápido" e "Camacove". Este comboio parava em todas as estações e apeadeiros da linha. Algumas carruagens tinham cama, do tipo "camarata". O comboio além da utilidade de servir o interior de Angola, trazia o minério de cobre do Katanga até ao Lobito para ser embarcado para os altos fornos belgas - Bélgica.
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O Caminho de Ferro de Benguela (CFB), é a única linha ferroviária da África Central ao Atlântico. A sua construção, com origem numa Lei de Agosto de 1899, foi iniciada a 01Mar1903, tendo sido concluída em 02Fev1929. A 10Jun1931 chegou ao porto do Lobito o primeiro carregamento de cobre do Katanga.
A título de curiosidade, o contrato da concessão de exploração de 99 anos, atribuído à Companhia de Caminhos de Ferro de Benguela SARL, terminou no dia 28Nov2001, revertendo a favor do Estado Angolano todos os meios fixos e circulantes da Companhia.
Do Lobito ao Luau, por esta via, são 1 301 quilómetros.
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O Distrito do Moxico - Leste de Angola:
Do Luso (hoje Luena), continuamos em direcção a Teixeira de Sousa (Luau), onde a cada momento, nos surpreendemos. Para quem estava habituado a ver, no Norte de Angola, uma floresta cerrada, cada árvore entrelaçando as ramagens com outras árvores congéneres, gigantescos maciços de árvores, de um verde carregado e sombrio onde a luz não penetra e onde se desenvolvem, na meia obscuridade, os fetos os musgos e as trepadeiras, de repente, depara-se com o terreno nu da anhara.
É assim a "anhara da Cameia" que tem uns trezentos quilómetros de comprimento.
O chão é arenoso, coberto de capim ralo, sem arbustos, sem árvores. Na época do calor, começam as chuvas torrenciais; as bátegas caem umas atrás das outras, com violência e continuidade; a anhara inunda-se; nas suas depressões aparecem logo pequenos charcos e lagos, e, nesse lagos, não tardam a surgir peixes miúdos que abundam em toda a anhara - até parece "chover peixe"; os naturais apanham-no, espalmam-no e secam-no ao sol; o peixe, depois de seco, fica escuro, luzidio e duro.
Finda a época das chuvas, principia o cacimbo, a estação seca. Do céu não cai um pingo de chuva. Por fim o terreno seca e surge o capim tenro, muito apreciado pelos antílopes e bovídeos. A anhara é uma pastagem.
Quem não se lembra daquele espectacular panorama visto do comboio em andamento, as grandes manadas bravas de cabras de leque, zebras, pacaças, palancas de grandes hastes, etc.

"O futuro é sempre melhor do que o passado! "



Luanda → Lisboa.

"A glória por trabalhos alcançados!"

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Senhor Américo - Caro Amigo
Um abraço também para si!
Vou transcrever o seu Comentário

Américo disse...
"Amigos 115, sou um antigo veterano que fazia escolta de camiões carregados de comestíveis, etc. De Cazombo a Teixeira de Sousa, até se ia tomar banho a Dilolo, e um dia onze colegas meus foram capturados mesmo em la piscina, eu tive sorte, esse dia preferi tomar cerveja em Teixeira de Sousa. Também estive no Norte, e fiz a mesma coisa: Caxito, Úcua, Piri, Quibaxe. Também Mabubas, Bom Jesus, Quicabo, etc., etc. Que tempos esses. Fui de Luanda até General Machado de camioneta, depois de comboio até Teixeira de Sousa, e de Unimogue até Cazombo. Janeiro de 68-69 Leste, de 69-70 Norte. Adeus Amigos foi um prazer falar com vocês".

4 de Março de 2010 - 01:00

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Férias à Metrópole

Todavia nem todos os momentos vividos em campanha foram maus. Nos últimos meses do ano de 1962, foi-me perguntado se pretendia “ir de férias à Metrópole”. Claro! Aceite logo com um sorriso rasgado de orelha a orelha. Todavia afigurava-se-me que havia na companhia quem merecesse mais do que eu essa recompensa. Entretanto a decisão estava tomada e era facto consumado. Alguns dias depois lá venho eu a atravessar novamente Angola de lés-a-lés. Itinerário: Lumbala, Cazombo, Teixeira de Sousa (Luau), Luso (Luena), Nova Lisboa (Huambo), Quibala, Dondo, Catete, Luanda. S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Lisboa, Mértola, Faro. Regresso: Itinerário inverso com escala na Guiné. Nem tudo é mau na vida!

Travessia do rio Zambeze

Eu, fraco nadador, em mais uma imprudente travessia do rio Zambeze no Lumbala. Atravessei o rio, algumas vezes sozinho, numa canoa do tipo piroga (pertencente ao soba Ximixe), com vários metros de comprimento, desprovida de colete salva-vidas. Este grande rio africano tem no local mais de 200 metros de largura na época seca e estava infestado de jacarés. Quando penso nesta imprevidência, até faço o sinal da cruz!
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No Lumbala, pude constatar ao vivo as necessidades reais da população não-branca. Os naturais eram realmente uns desprotegidos. Constatei também que, por duas ou três vezes, as pessoas, entre si, me chamavam de "samucongue". Perguntei-lhes então qual era o significado da palavra. Responderam-me que era "homem bom!". Se era assim ou não, não sei e também não sei se a palavra se escreve tal como a pronunciavam. Contudo sei que não parti daquela terra com a consciência pesada.
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Lumbala no presente
Notícia Internet, de 11Dez2004, refere:
As sedes municipais dos Bundas (Lumbala-Nguimbo) e Luchazes (Cangamba), na província do Moxico, estão ligadas por estrada desde sexta-feira, depois de 27 anos de inoperacionalidade da via.
Em Lumbala-Nguimbo (mesma data) o governo provincial está a construir, de raiz, um hospital e uma escola de segundo nível.

Numa Canoa



























No ano de 1963

Êxodo do Katanga.

Portugal declara-se pronto a negociar e a assinar pactos de não-agressão com todos aqueles que se sentirem ameaçados.

Conferência de Adis-Abeba que cria a OUA, em 25/26Mai, em que foi decidida a dissolução da PAFMECSA, do grupo de Casablanca e da IAMO – corte de relações com Portugal dos países da OUA.

A OUA resolveu: Recomendar às grandes potências para cessarem todo o apoio directo ou indirecto ao Governo Português por estar a conduzir uma verdadeira guerra de genocídio em África; enviar uma delegação do MNE para falar na ONU em nome de países africanos no exame da Comissão dos 26 sobre a situação dos territórios africanos sob dominação portuguesa; pedir o corte de relações diplomáticas e consulares de todos os países africanos com Portugal e a RAS; solicitar um boicote ao comércio com Portugal, fechar os portos e aeroportos a navios e aviões portugueses, proibir sobrevoos de aviões de Portugal em todos os países africanos; e ainda outras medidas de coordenação e acção comuns.

É aprovada a Carta da OUA com 33 artigos.

Aparece a FLEC – Frente de Libertação do Enclave de Cabinda.

Em Maio, devido a dissidências no seio da FRELIMO surge o Comité Secreto para a Restauração da UDENAMO e reaparece a MANU que constitui com o MANC e a UDENAMO a Frente Unida Anti-Imperialista Nacional Africana de Moçambique – FUNIPAMO.

Mudança de política dos EUA em relação a Portugal. Abandono da ideia de conseguir o rápido colapso da política ultramarina portuguesa e … (Jun63).

Vinda a Lisboa de George Ball (2º. No State Department) por incumbência pessoal de Kennedy (Ago63).

É modificado o carácter e a composição do Conselho Ultramarino.

Afro-Asiáticos apresentam a “doutrina da incompatibilidade” devendo ser oportunamente considerada a expulsão de Portugal da ONU (AG/ONU).

Conversações directas com países africanos (Outubro).

Assassinato de Kennedy em 22Nov1963.

1964 … a 1974

Cacuaco

A partir de 04Abr962 e até 13Mai62, o Batalhão 114, estacionou no Cacuaco, donde se deslocou para a Zona Militar Leste, com sede no Luso.
Muito embora no Cacuaco existisse uma boa praia, peixe fresco e marisco e já dispuséssemos de beliches, o que até então não tivemos, ainda não tínhamos colchões, o que implicava termos de atar com cordel, uma manta aos varões do respectivo beliche para assim podermos descansar.

No ano de 1962

Ataque ao Quartel de Beja e morte do Secretário de Estado do Exército, Coronel Jaime da Fonseca (01Jan).

Na ONU, Portugal era considerado o país colonial mais impenetrável aos ventos da história… ancorado nas suas certezas medievais.

Alterada a Organização Territorial do Exército, criando 6 regiões militares e 8 comandos territoriais independentes.
É reactivado novamente o GML. A RM 5 passa a ter a sua sede em Évora.

Criação em cada uma das províncias ultramarinas de uma Organização de Voluntários de carácter permanente (OPVDCA).

Realiza-se em ACCRA uma conferência do CONCP presidida pelo Presidente Nkrumah na qual tomam parte representantes da MANU e da UDENAMO. A MANU (Mozambique African National Union) e a UDENAMO (União Democrática Nacional de Moçambique) associam-se constituindo uma frente comum para a libertação de Moçambique.

Em Maio, em DAR-ES-SALAM associa-se à ideia da frente de libertação a UNAMI (União Nacional Africana de Moçambique Independente), sendo constituído o Conselho Supremo.

Após prolongadas e difíceis negociações, os prisioneiros portugueses em campos de concentração em Goa, são repatriados (Maio).

Formação em Angola das primeiras unidades dos Comandos (Zemba e depois Quibala).

Em 25Jun, fundação da FRELIMO.

Conflito entre o Governo de Angola e o Ministério do Ultramar.

Por acção do governo da Tanzânia a MANU e a UDENAMO foram fundidas na FRELIMO.

Adelino Gwambe, presidente da UDENAMO, discorda desta medida, afasta-se da FRELIMO e cria a UDENAMO-MONOMOTAPA.

Reúne pela primeira vez o Congresso da FRELIMO que aprova os estatutos, e cria delegações na Tanzânia, Malawi, RAU, Gana, Argélia e OUA.

Os quadros são treinados em Gana e na Argélia, China, Rússia, Etiópia e Roménia.

Demissão do Governador e Comandante-Chefe de Angola General Venâncio Deslandes.

Em Outubro surge o KILIMAN FREEDOM PARTY, formado em Salysbury e dirigido pelo malawiano Peter Balamanga, que associado a dois outros agrupamentos de naturais de Moçambique cria o MANC – Mozambique African National Congress.

Dobrar da esquina nas relações bilaterais luso-americanas.

O Presidente do Conselho, através do Discurso “Defesa de Angola – Defesa da Europa” torna público o seu abandono da pasta da Defesa Nacional.
Remodelação ministerial (G.Araújo, MDN; Luz Cunha, Exército).

Reunião da UAM, Chefes de Estado.

Organização do Comité dos 24 da ONU.
EUA votam a favor de Portugal.

Grave crise universitária em Portugal.

A guerra alastra em Angola.

É criado o CAUNC – Comité d’Action d’Union National dês Cabindais.

A guerra no ultramar passa a constituir o problema nº. 1 da vida portuguesa.

A Colónia Indiana de Lusaka (Rodésia do Norte) faz propaganda insidiosa contra Portugal e os portugueses.

O Rei Luanica da Barotzelândia mostra-se hostil à penetração de movimentos nacionalistas angolanos.

A política de Pretória em relação ao Sudoeste Africano, tem vindo a ser modificada face à pressão internacional. Pretória tende a dar, no Sudoeste, uma satisfação à opinião internacional considerando a ascensão do território à autonomia, ou, se for possível, cindir o protectorado em duas zonas de influência:
· A zona de influência boer, a Sul e futuramente integrável na União, e
· A zona de influência bantu, a Norte, a ter autonomia, ou independência.

Congo-Leo – Nele estão sedeados a quase totalidade dos partidos nacionalistas angolanos.

É conhecida a notícia de um campo militar para treino da UPA.

O governo português pede explicações ao Congo-Leo o que causa dificuldades entre os portugueses ali residentes e com as autoridades fronteiriças.

A UPA começa a ser contestada pelo MPLA.

A UPA, partido responsável pela conduta das operações da insurreição em Angola dirigido por Holden Roberto.
Influências:
. Tribais – Bakongas;
. Religiosas – Batistas;
. Racistas – Escorraçamento da Província de europeus, europeisados e mestiços e confiscação de todos os seus bens.
Apoios:
. Organizações protestantes e Pan-Africanistas americanas, especialmente do ACA (American Committee on Africa);
. Holden Roberto foi recebido na Casa Branca por Kennedy;
. Grupo de Monrovia;
. Bloco Magrebino;
. Alguns países do Bloco Socialista.
Realizações:
. O único partido a actuar na subversão activa;
. Dispõe um governo no exílio o GRAE (Governo da República de Angola no Exílio).
Vulnerabilidades:
Dissidências internas.

No Congo-Brazaville, Abade Youlou mantém uma prudência espectante em relação à situação em Angola, enquanto que o socialista Tchechelle, “maire" de Ponta Negra tem ambições sobre Cabinda, moderadas pela presença de forças francesas que nos são favoráveis.

Congo-Brazza – Fragilidade política e graves deficiências de administração e apoio aos movimentos emancipalistas que desejam independência de Cabinda, como fase ulterior integração daquele território num dos congos.

A Verdade

Em tempo de Paz:
- Havia tempo mais que suficiente para contar anedotas;
- Mas limpar e lubrificar a espingarda representava um sacrifício desmedido; tinha que ser imposto pelo superior hierárquico.
Em tempo de Guerra:
- Não havia tempo para as tais “Piadas de Caserna”
- A arma, que lhe fora distribuída (“a canhota” ou a “Maria”, como se queira), era devidamente limpa sem que alguém o determinasse. Era uma companheira que ficava sempre ali ao seu alcance, ao lado da tarimba!

Quibaba - Pano de Fundo a Pedra Verde e os típicos Mamelões ao centro


Quibaba - Pedra Boa (Úcua) - NOCA e VALHOR




Quipetelo/Beira Baixa

Outro episódio:
A abertura do itinerário entre Quipetelo e a Fazenda Beira Baixa, estrada para Nambuangongo, esteve a cargo das CCaç.115 e 117.
Por motivos que já não sei precisar, mas que presumo terem sido de logística e ligados às transmissões, não acompanhei a minha companhia para a Beira Baixa. A minha deslocação para a Beira Baixa foi no dia 12Set, 4 dias depois, num jipe de transmissões da 115, integrado numa coluna da 116.
Neste itinerário, a coluna foi flagelada pelo IN num local perfeito para a emboscada (de um lado a ravina e do outro lado uma zona alta, coberta de capim e mata) que foi estrategicamente bem montada. O IN, entrincheirado, varria a zona de cima para baixo, a uma curta distância das nossas viaturas, impedindo-nos de o repelir com eficácia devido ao facto de nem sequer podermos recorrer ao lançamento de granadas de mão para desalojarmos os guerrilheiros dos seus abrigos, porque sujeitar-nos-íamos a que as granadas não atingissem o alvo e viessem a rebolar ao nosso encontro.
Como o volume de fogo do IN era intenso e vinha do nosso lado direito, em relação ao sentido de marcha, impossibilitando-nos de sair das viaturas, encostámo-nos para esse lado, a fim de não ficarmos expostos ao fogo dos guerrilheiros, porque a coluna de viaturas encontrava-se parada.
Atendendo a que o fogo dos emboscados incidia mais sobre a viatura das transmissões, provavelmente por terem ouvido a minha comunicação a informar que “estamos a ser atacados” e também porque de seguida a Estação Directora da Rede Rádio, atenta às comunicações, insistia nas chamadas para obter mais informações relativamente ao desenrolar da operação, não deixavam de nos flagelar, felizmente, sem consequências de maior.
No “meu Jipe”, seguia um elemento acabadinho de chegar, que iria fazer ainda, na Fazenda Beira Baixa a sua apresentação ao Comandante de Companhia, para recompletar o efectivo, substituindo um dos malogrados camaradas que faleceu em Quando-Maúa, o qual fazia ali mesmo o seu baptismo de fogo.
O curioso é que, este nosso novo camarada de armas, “maçarico” em termos de experiência em situações análogas, colocou o cano da velha mauser sobre a parte lateral da viatura e, à medida que fazia os disparos, sem apontar e sem apoiar a coronha da arma no ombro, dava origem a que os fortes “coices” da arma, me atingissem a mim, amortecendo no meu capacete, por me encontrar encostado à parte lateral interior do jipe e, simultaneamente, encostado também a ele.
Irra!
E esta! Heim !!!...

No ano de 1961 (cont.)

Ocupação de Nambuangongo (Angola) em 09 de Agosto.

Foi extinto o cargo de Ministro da Presidência e criado o lugar de Secretário de Estado da Presidência do Conselho.

A União Indiana integrou no seu território Dadra e Nagar-Aveli e iniciou preparativos para a invasão dos restantes territórios portugueses.

São utilizados pela 1ª. vez os F-84 baseados em Luanda, no dia 17 de Agosto.

Realiza-se o II Curso Universitário de Férias em Luanda, a cargo da Universidade de Coimbra.

O Decreto-Lei, datado de 06Set61 que revoga o Decreto-Lei de 20-V-54 (No ano de 1954, é publicado o Decreto-Lei 39666 de 20-V, que refere o seguinte: “Divide as populações da Guiné, Angola e Moçambique em três grupos: indígenas, assimilados e brancos. Define indígenas e indica como podem passar a assimilados e a adquirir a cidadania portuguesa”), e estabelece a cidadania a todos os indígenas do ultramar português e a igualdade entre os portugueses da Metrópole e os do Ultramar.

Reunião da UAM-Chefes de Estado, em Tananarive.

Salazar decidiu manter o uso de facilidades nos Açores, aos americanos, sem a renovação formal do acordo das Lajes, o que empurrou os americanos para uma política de moderação em relação a Angola. Assim conseguiram alterar nas moções afro-asiática, “independência” para “autodeterminação”.

Kennedy em audiência ao MNE português, declara que o problema fundamental é o da África, em que os EUA apenas pretendem opor-se a que a mesma caia sob domínio soviético e por isso apoiam a autodeterminação.

Queda do avião C-47 em que morrem 15 militares do Exército e da Força Aérea, entre os quais o General Silva Freire, Comandante da RMA. Desastre de Chitado em Angola (10Nov).

Tchombé encarregado de formar governo em Leopoldeville.

EUA opõe-se ao uso da força para anexação de territórios e simultaneamente defendem a autodeterminação.

Às 23h15 de 17 de Dezembro, 08h30 hora de Lisboa, a União Indiana iniciou um poderoso ataque militar contra Goa, Damão e Diu. Rendição em 19 de Dezembro.

A solicitação de Portugal foi convocado o Conselho de Segurança por causa da invasão de Goa, o Conselho condenou a União Indiana, mas a União Soviética apôs o seu veto.

É fundada em Marrocos a CONCP – Conselho das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas – na reunião de dirigentes dos partidos existentes em todo o Ultramar português, com alguns metropolitanos fugidos para o Norte de África por motivos políticos e ainda membros do Partido Comunista Português, que procura logo, em relação a Moçambique, fundir num só partido os 3 movimentos existentes MANU, UNAMI e UDENAMO.

O C. F. de Moçâmedes, iniciado em 1905, chega a Serpa Pinto (765 Km).

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Coluna Militar - Capim Alto e Mata Densa


Viatura Militar alvejada c/ mais de 20 tiros


Sete Curvas

O local das Sete Curvas (em pouco mais de 100 metros), era o sítio ideal para uma emboscada às nossas forças.
Estrada a serpentear à beira de uma ravina. Do lado oposto à ravina, numa zona alta, no sentido Cacuaco – Beira Baixa – Nambuangongo, lá estava o IN abrigado em trincheiras, à nossa espera!

Nesta emboscada “a das Sete Curvas”, 27Jul?, por força das circunstâncias, fomos obrigados a acampar e a pernoitar no sopé de um morro imediatamente à última curva (7ª.), por entretanto ter anoitecido e por termos sofrido 1 morto e 2 ou 3 feridos graves que careciam de evacuação rápida. O local do acampamento era paupérrimo, de mata cerrada, mas não deixando ao Comandante outra alternativa que não fosse a de determinar que a máquina que nos acompanhava, buldozer, “terraplanasse”o sítio onde pernoitámos. Foi um trabalho exaustivo atendendo a que um pouco antes tinha havido um confronto com o IN. Eu sei que nessa noite descansei um pouco sobre uma manta que estendi por debaixo do jipão das transmissões até cerca da meia-noite, altura em que fui acordado, por ordem do comandante, a fim de transmitir em morse, uma mensagem cifrada (RI). A transmissão da mensagem em morse garantia uma maior segurança ao seu conteúdo e minimizava a ocupação do espectro de radiofrequência e também porque a propagação do sinal rádio em fonia era ténue devido a problemas relacionados com o comprimento da antena horizontal, instalada no exíguo espaço existente entre o jipão das transmissões e o ramo de um embondeiro que lhe servia de suporte. Na transmissão dessa mensagem, ajustei a mola da chave de morse à coxa da perna direita e à luz de uma lanterna, tapado com uma capa para impedir que fosse visto pelo IN, o qual poderia eventualmente ter permanecido naquele morro muito alto que se situava ali bem perto e em local privilegiado para disparar dali uns tiros que atingissem o alvo, neste caso, a minha pessoa. Enfim, depois de tudo isto, o Relatório Imediato lá chegou ao destinatário que o aguardava com alguma ansiedade. Um alívio para o Comandante e uma honra para mim; esgotado, mas consciente do dever cumprido; a seguir fui descansar. Por vezes interrogo-me: Terá o Comandante descansado alguns minutos naquela noite? Estou em crer que não porque o dia seguinte foi também de trabalho intenso e a noite já era longa.

A CCaç.115 teve também a sorte ou privilégio de ter como Comandante o Capitão (hoje Major General na reserva) Alípio Emílio Tomé Falcão e como 2º. Comandante o Tenente (hoje Tenente General na reserva) António Cipriano Pinto, distintos oficiais de forte personalidade, decididos, muito jovens, mas com uma enorme maturidade.

Patrulha Militar apeada em progressão


Episódios Avulsos



O episódio da emboscada de Quanda-Maúa e toda a história da CCaç.115, como já referi, serão enfatizados pelo meu grande amigo ex-Alferes Nobre de Campos (NOCA).
Vai sair na perfeição. Aposto! Força NOCA. P´rá frente! Que atrás vem gente!



O momento esperado – 1º. Contacto com o IN – 15Jul61 - Quanda-Maúa
(Nota: IN - Guerrilheiros - Terroristas, para uns; heróis para outros. É assim na guerra!)
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À entrada da Ponte (destruída) - Rio Lifune - Anapasso, mais concretamente na margem esquerda do rio, estava colocada uma tabuleta em madeira, com os seguintes dizeres: "Reino de Nambuangongo - Daqui para diante não passa pé de branco - Tudo o que passa morre".
Era voz corrente que os feiticeiros forneciam aos grupos de guerrilheiros mixórdias e drogas que os protegiam das balas dos portugueses, e, por conseguinte, gritavam: "bala de branco não mata". (Diziam os entendidos, nomeadamente os guias, que eles bebiam muito maluvu, uma bebida, tradicional do Norte de Angola. Bebida que extraíam da palmeira, cortavam o pé das inflosrescências mais altas e encaminhavam a seiva para uma cabaça até encher de líquido. Depois da fermentação a seiva adquire um sabor adocicado que fica com um teor alcoólico considerável. Nalguns casos, os próprios sobas ofereciam-no também às divindades ancestrais).
No itinerário atribuído ao BC 114, a dificuldade era acrescida não só com as picadas obstruídas com árvores de grande porte e valas profundas, mas principalmente com a ponte destruída.
Cada Batalhão tivera sorte diferente ao longo da jornada de cerca de quatro a cinco semanas de duros combates e dificuldades tremendas para abrir caminho. O BC 114 debateu-se com enorme dificuldade para reconstruir a ponte sobre o rio Lifune e sem qualquer outro itinerário alternativo. A reconstrução da ponte, não obstante ter sido reparada num tempo record, atrasou substancialmente a progressão do Batalhão, itinerário para onde o IN fez deslocar os seus melhores e muitos grupos de guerrilheiros, inclusive, desguarnecendo, em parte, outros caminhos directos para Nambuangongo, os quais atacaram ferozmente as nossas tropas, tendo concorrido para que fizesse do BC 114, uma espécie de "O Viriato Trágico", por o ter impedido de chegar pontual e naturalmente a Nambuangongo. Há que referir aqui os fenómenos observáveis pelo sentido das batalhas, das emboscadas sucessivas, do corte da única via em muitos pontos do itinerário e de um sem número de abatises de árvores na picada, e reunir os estados psicológicos dos soldados que participaram nas acções ou durante elas são recordadas ou pressentidas.
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Como disse anteriormente, irei falar muito pouco do nosso “baptismo de fogo”:
A CC 115 sofreu nesta emboscada montada pelo IN em Quanda-Maúa, 6 mortos e 14 feridos (todos do meu pelotão) e que o IN saiu deste combate com algumas centenas de mortos, que abandonou no local, muitos feridos e totalmente derrotado. O confronto entre as duas partes foi inevitável bem como a luta corpo-a-corpo. O “meu” Emissor/Receptor ANGRC-9, instalado na viatura onde me deslocava, foi alvejado com 2 tiros de canhangulo (espingarda artesanal) no emissor, no início do combate e no preciso momento em que eu estava de micro na mão a informar o Comandante da Companhia que estávamos a ser atacados. De referir que o próprio Comandante se encontrava na viatura de comando, a uns escassos 30 ou 40 metros de distância do local onde os guerrilheiros se concentraram e nos atacaram. Neste local, o capim e a própria mata eram tão altos e densos que cobriam as antenas verticais instaladas nas viaturas.
A tripulação do “meu” Jeep era constituída por mim, por um furriel enfermeiro, por um soldado atirador/observador e, obviamente, pelo motorista da viatura. O soldado atirador ia ao lado do motorista; eu e o furriel enfermeiro seguíamos no banco da retaguarda. Eu e o soldado atirador, saímos ilesos do combate; o Furriel Miliciano Enfermeiro, Certo Loureiro, não teve tanta sorte, foi um dos 6 mortos em combate nesse ataque. O motorista ficou gravemente ferido e foi um dos 14 feridos nesse feroz combate.
Para aqueles que por força do destino não regressaram: Que Deus os guarde e a Pátria não os esqueça! (Os corpos dos 6 militares mortos em combate em Quanda Maúa foram enterrados no Cemitério de Sassa).
E, para aqueles que foram gravemente feridos, a guerra, essa, persegue-os como uma sombra! E não há modo de se desprender!
Ainda hoje, quando relembro esse acontecimento, vem-me à memória o sentimento do terror que senti nesse dia fatídico. Foi ali, ao meu lado, que vi camaradas meus a morrer e outros a gemer por se encontrarem gravemente feridos, o que me levou a compreender quanto insignificante, breve e efémera a nossa vida é.
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Apetece-me falar aqui no “Apólogo da Morte” de Francisco Manuel de Melo

“na mocidade os moços confiando,
ignorantes da morte, a não temiam.
Todos cegos, nenhuns se lhe desviam;
Ela a todos c’o dedo os vai contando.”



Transcrição de um artigo inserto nas páginas nºs. 34 e 35 do Livro da História da Companhia de Caçadores 116 (28 de Maio de 1961 a 13Jul1966), relatando o ataque de Quanda Maúa:
“…………. Nesse mesmo dia (14Jul61) a CCaç.115 chegou a Anapasso com vista a progredir às primeiras horas do dia seguinte à retaguarda da CCaç.117, para a limpeza do terreno e avanço sobre Quicabo.
Combate de Quanda-Maúa
a) Às 06.15 h. do dia 15 a CCaç.117 começou a ser atacada por 2 grupos IN, num total de cerca de 80 homens.
b) O alarme foi dado por um tiro disparado pelo IN da mata a E do estacionamento da CCaç.117, sobre um soldado desta Companhia que se afastara um pouco do estacionamento. Este tiro atingiu o praça no pescoço, sem consequências de maior. Foi o primeiro militar ferido na Unidade e, por coincidência, tinha o nº. do próprio Batalhão: soldado 114/60.
c) O ataque foi efectuado por 2 grupos. Um cerca de 50 homens, com canhangulos e catanas, vestindo calção e camisa azul e com um lenço atado à volta da cabeça atacou de frente, ao longo do itinerário para Quicabo. O outro grupo, de cerca de 30 homens, a maior parte vestidos de caqui (o que levou ao pensamento momentâneo de ser pessoal nosso) atacou em direcção à orla E do estacionamento da CCaç.117.
d) Localizados os grupos a CCaç.117 abriu fogo sobre o primeiro grupo, tendo a maioria dispersado e, posteriormente, juntado ao outro grupo localizado a E.
e) A CCaç.116, que dominava o terreno em redor abriu fogo sobre este grupo provocando inúmeras baixas. São de realçar os efeitos da Metralhadora Pesada Breda e do Lança Foguete 8,9 (Babooka).
f) Salienta-se que, como sempre se veio a constatar, o IN preocupou-se em levar consigo, na retirada, os feridos e o armamento.
g) Nesse mesmo dia e pouco tempo depois do ataque à 117, a CCaç.115 que se encontrava em Anapasso, recebeu ordem para seguir para a região e, quando estava prestes a atingir Quanda-Maúa, foi surpreendido por um violento ataque lançado por um grupo IN que se dissimulava na mata à direita da estrada.
h) O ataque desencadeado com tiros de canhangulos e caçadeiras, lançando-se imediatamente à abordagem utilizando catanas. Os elementos IN ziguezaguavam entre as viaturas, saltando sobre elas. Alguns dos homens da 115 foram atingidos mortalmente e feridos com gravidade. A CCaç.116, que ocupava uma posição dominante, não podia actuar pois colocaria debaixo de fogo e, portanto, em grande risco os elementos da CCaç.115.
i) Calcula-se que nessa acção contra as CCaç.115 e 117 o grupo IN era constituído por um número bastante superior a 500, na quase totalidade rapazes novos.
j) Foi este o baptismo de fogo do Batalhão 114.
k) …”.

NOTA: Segundo alguns cronistas a Operação Viriato suplantou as outras grandes operações dessa mesma guerra. Referem que esta operação foi provavelmente a acção militar portuguesa mais importante não só de Angola mas também de toda a Guerra de África 1961 – 1974 (destacando-se o ataque de Quanda-Maúa).
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Caro Internauta:
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A propósito acrescentarei o seguinte:
Tudo aquilo que tenho gravado na "caixinha da memória" e que passei para este Blog é verdadeiro, embora o descreva de forma sucinta pelos motivos já referidos.
O meu ex-camarada de armas, BMorim, do Bat Caç 114 corrobora o que foi dito acerca do ataque de Quanda-Maúa. As Companhias Operacionais 115, 116 e 117 intervieram directamente neste ataque e emboscada.
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Atenção que nem tudo o que tem sido relatado em relação a Nambuagongo (Operação Viriato) corresponde inteiramente à verdade. O itinerário atribuído ao Bat 114, foi "osso difícil de roer", passe a expressão. Os OCS (Órgãos de Comunicação Social) poderiam obter também mais informações, a fim de passarmos para a nossa História a veracidade real dos factos. Na televisão, os próprios Chefes da chamada "Guerrilha Angolana", abordaram esse acontecimento mas não o desenvolveram porque não estava presente no debate ninguém do "114".
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Caro leitor
Não irei suplicar-lhe que leia os "Comentários" deste "Título - Episódios Avulsos", porque acho que o termo é demasiado "forte". Contudo, peço-lhe que o faça. O comentador BMorim, da CC 117, sem contar tudo o que se passou naqueles dias porque é praticamente indescritível fála-nos entretanto de algumas coisas que se passaram desde a refrega de Quanda Maúa, até à "tomada" de Quicabo.
Direi, única e simplesmente: CONFIRMO. Verdade verdadíssima.
Mas há mais! Na oportunidade, outros episódios irão ser comentados.

No ano de 1961 (cont.)

Chegada de contingentes militares a Luanda.

Visita do Min. do Ultramar e S.S.E. Aeronáutica a Angola.

Franco nogueira nomeado MNE.

Dean Rusk, durante a reunião da OTAN em Oslo, insiste junto do MNE português, em dois pontos: Necessidade de fazermos propaganda nos EUA para esclarecer e persuadir a opinião pública americana acerca da política portuguesa em África; a necessidade de realizarmos urgentes reformas nas nossas províncias africanas.

Reunião da Inter-African and Malgasy States Organizacion (IAMO), em Monrovia.

Discurso do Ministro do Ultramar, Prof. Adriano Moreira – Batalha da Esperança.

Entrevista entre De Gaule e Kennedy que considerava que Portugal estava agarrado a rígidas políticas coloniais. De Gaulle concordou que a atitude portuguesa era inflexível e obsoleta; mas empurrar Salazar poderia causar uma revolução em Portugal e estabelecer um estado comunista na Península Ibérica. Kennedy preconiza para os EUA uma posição progressiva em relação a Angola na ONU.

Kennedy decide o embargo oficial da venda de armas para Portugal.

Início da concentração de poderes. O Almirante Sarmento Rodrigues toma posse do cargo de Governador e Comandante-Chefe de Moçambique, e é definido o esforço nos distritos de Cabo Delgado, Niassa e Tete.

Condenação de Portugal pelo Conselho da ONU (EUA em apoio).

Fuga para o estrangeiro de muitos estudantes ultramarinos.

O General Venâncio Deslandes, nomeado em 06 de Junho, toma posse de cargo de Governador e Comandante-Chefe de Angola e é definida a missão de esmagar o terrorismo, tarefa que será mais facilitada com a concentração de poderes civil e militar.

Os ramos militares “Pogo” (Nó sós) do PAC e “Umkonto we szwe” (O fero da Lança da Nação) do ANC, desencadeiam a luta armada na África do Sul.

Criação, na dependência do Ministro da Defesa Nacional, do Secretariado de Estado da Aeronáutica.

Discurso do Presidente do Conselho reafirmando a decisão de resistir – O Ultramar Português e a ONU.

Ataque a S. João Batista de Ajudá.

Indicação segura por parte dos EUA, através do seu embaixador em Lisboa, de aspirações intervencionalistas ou expansionistas de outras nações em relação a territórios portugueses.

A Equipa das Trasmissões da "115"

Constituição:
Chefe – 2º. Sargento Martins;
Radiotelegrafistas:
1ºs. Cabos: 2199/60, Ribeiro; 2202/60, Xavier; 2200/60, Horta; 2201/60, Correia.
Soldados: 2203/60, Pereira; 1455/60,Garcia; 12/60, Lemos; 2204/60, Silva.
Cifrador:
1º. Cabo 20/60, Sá. A codificação de mensagens estava a seu cargo. Elemento discreto, metódico de qualidades pessoais de educação e sociabilidade destacáveis.

Nota: A equipa das transmissões da “115” criou dentro de si um vínculo de amizade e de solidariedade muito forte. O seu trabalho também concorreu para o prestígio alcançado pela “115”.

No Caxito, os radiotelegrafistas da CC 115 receberam instrução dos equipamentos de transmissões com que iriam trabalhar, do diagrama de redes e indicativos de chamada, da autenticação das mensagens e, de um modo geral, das regras e procedimentos de uma rede rádio.
Ficamos a conhecer os equipamentos atribuídos à Companhia:
O E/R ANGRC-9, normalmente instalado em local fixo ou em viaturas. Por vezes, em operações apeadas era transportado às costas. O seu completo em termos de acessórios, era composto por uma enorme Unidade de Alimentação, um Gerador Manual, a respectiva antena, chave de morse, micro, auscultadores, etc., mobilizando quase sempre duas ou três pessoas no seu transporte. Este equipamento, a trabalhar em HF, cujo comportamento do sinal de emissão atinge e se reflecte nas altas camadas atmosféricas, era um óptimo equipamento desde que fosse devidamente sintonizado e fossem seleccionadas as frequências diurnas e nocturnas. A antena horizontal deste equipamento estava preparada e aferida tendo em conta a frequência em que se pretendesse trabalhar. Devidamente instalado, cobria todo o território de Angola, nomeadamente em grafia (morse);
O E/R PRC-10 que estabelecia o contacto com os aviões no teatro de operações (não cobria grandes distâncias);
O E/R CPRC-26?, portátil, apenas funcionava em linha de vista e a curta distância (tipo de comunicação que segue a curvatura da Terra – VHF)

Foi ainda no Caxito que demos início à instalação de antenas verticais não verdadeiras (pedaços de verguinha de aço, utilizado no betão armado) em todas as viaturas da Companhia, a fim de evitar que as viaturas onde se encontravam instalados os meios de transmissões fossem referenciadas pelo IN (Inimigo como era considerado na altura).
No Caxito havia muitos mosquitos. A zona tem muitas palmeiras e canais de rega para o palmar e canavial de açúcar da Fazenda Tentativa, pelo que o aparecimento das "melgas" é inevitável, acrescendo ainda o calor tropical que caracteriza a região. Na Fazenda Tentativa, a cana era moída, transportava-se o sumo às caldeiras, onde era cozido e recozido, escumado e lavado, até se pôr nas formas a coalhar; na casa das fornalhas, o calor, a fumaça, o negrume, davam espanto a quem, alheio àquela espécie de trabalho, por curiosidade o contemplava. Só que, devido aos factores referidos, os mosquitos na zona do Caxito apoquentavam de tal ordem que eu fui parar à enfermaria onde levei uma injecção anti-inflamatória (penso que terá sido a última injecção dada pelo furriel enfermeiro Loureiro que falecera em combate na emboscada de Quanda-Maúa, dias depois).

Operação Viriato

A missão de progredir o eixo Caxito – Nambuangongo foi dada ao Batalhão de Caçadores 114, reforçado com uma companhia de sapadores, um pelotão de morteiros e um pelotão de canhões sem recuo.

A Operação Viriato

- Designação: “Operação Viriato
- Planeada pelo Comando do Sector 3
- Sedeada em Tentativa

A Operação Viriato foi com toda a certeza a maior operação da Guerra de África 1961 – 1974, principalmente em materiais – homens, armamento e apoios de combate.

Na Operação Viriato, o objectivo central era o de retomar a povoação de Nambuangongo. A estabilidade do domínio da UPA naquela região era julgada pelo IN muito forte e sólida.

O Comando do Sector 3, em cujos limites se englobava aquela região, recebeu a missão de:

Reduzir os bandos rebeldes no seu sector e interditar a sua passagem para sul e este, tendo em especial atenção a área de Nambuangongo – Quipedro.
Manter a posse das principais regiões ou centros;
Assegurar a liberdade de movimentos, em especial nos eixos Caxito – Úcua – Quitexe, Caxito – Nambuangongo e Ambriz – Nambuangongo – Quitexe;
Reagrupar, proteger e orientar a instalação das populações;
Exercer a acção psicossocial.

Documento 4 – Mapa da participação da guerrilha na acção de 1961


Documento 3 – Áreas operativas e seus responsáveis


Documento 2 – Plano da Operação


Documento 1 – Organigrama da Guerrilha


Documentação da UPA

O Plano de Operações da guerrilha da UPA, na acção levada a cabo em 15Mar61, posteriormente publicada em jornais e revistas, foi a seguinte (4 documentos):

Sete dos Nove RadioTelegrafistas da 115


Caxito

Após a segunda semana de estadia em Luanda, o batalhão recebeu ordem de se transferir para a região do Caxito, ficando subordinado ao Comando Operacional 3 que conduziria as operações sobre Nambuangongo, o que aconteceu depois do reconhecimento ao local, e a distribuição das Companhias foi a seguinte:
· Comando e CCS – Sassa;
· CC 115 – Caxito;
· CC 116 – Mabubas;
· CC 117 – Mabubas.

A história da Companhia de Caçadores 115, está neste momento a ser contada pelo meu amigo NObre de CAmpos (NOCA), ex-alferes da “115”, oficial de elevado valor que ajudará a perpetuar, nos anais da história, o trabalho desenvolvido por esta Companhia de Caçadores. Perdôem a expressão: Ele é uma bomba de entusiasmo.
Continua! Eu apenas falarei de alguns episódios.
Ver: (http://noca-wwwcc115.blogspot.com)

“Mas eu que falo, humilde, “baxo” e “rudo”,
De vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que o louvor sai às vezes acabado.
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham acabadas
……………………………………………………………….Lusíadas, X, 154”.

Adapta-se.

Liceu Feminino de Luanda


Marginal de Luanda


Luanda

Na noite de 08Jun, o “Niassa” entrou na Baía de Luanda (Porém já onze sóis eram passados …), ficando ao largo; na madrugada de 09 o navio acostou e efectuou-se o desembarque, tendo o Comandante da Região Militar de Angola passado revista à formatura das tropas, iniciando-se de seguida o desfile pela inesquecível “Marginal”, onde a população local se concentrara e prestado uma recepção bastante calorosa às tropas recém-chegadas. De seguida o Batalhão seguiu rumo ao Liceu Feminino (Guiomar de Lencastre) onde ficou instalado.
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Curiosidade
" Angola:
O nome "Angola" tem raiz no termo "Ngola" que era título de um dos potentados Ambundos que existia no Antigo Reino do Ndongo, entre o Anzele, Ambaca e Pungo Andongo ( nas actuais províncias do Bengo, Kwanza Norte, Kwanza Sul e Malange) no tempo do início da expansão da influência dos portugueses sobre o Antigo Reino de Ndongo, na segunda metade do século XVI.
O termo "Ngola" tem por sua vez raiz no termo "Ngolo", o que em quimbundo (língua do povo Ambundo) significa "força", de acordo com o "Ensaio de Diccionário Kinbundu - Portuguez", preparado por Joaquim Dias Cordeiro da Matta, publicado em Lisboa no ano de 1893. O mesmo termo em quicongo significa "rigor, força, fortaleza, ou robustez". Os Portugueses depreenderam assim que o Ngola era aquele que tinha força, aquele que era poderoso.
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Luanda:
Escrito com "o" Loanda
Com a reconquista de Angola e a expulsão dos Holandeses de Angola em 1648 pela esquadra luso-brasileira sob o comando de Salvador Correia de Sá e Benevides, o nome da cidade foi mudado para "S. Paulo da Assumpção de Loanda", porque o antigo nome de Loanda tinha muita parecença com "Holanda", e em memória de Nossa Senhora da Assunção, em cujo dia (15 de Agosto de 1648) se restaurou o domínio Português sobre a colónia de Angola, é hoje feriado municipal.
Só em Abril de 1927 é que "Loanda" passou a "Luanda".
(Do Blog de Helder Ponte "Xinguila", conceituado historiador, natural de Angola, a residir no Canadá) "

No Mar Alto - RadioTelegrafistas do BT


Navio Mercante "Niassa"



















O N/M Niassa saiu do Cais de Alcântara a abarrotar. Carregou militares até não poder levar mais.
Transportou:
O Batalhão de Caçadores 114 (Companhias CCS, 115, 116 e 117);
Os Batalhões de Caçadores 155 e 156 (e respectivas Companhias)
A Companhia (Esq.) de Cavalaria 121;
2 Pelotões de Morteiros Pesados;
Outras unidades de menor expressão.


Desfile no Cais de Alcântara


Partida para Angola (28Mai61)

O dia da partida de Lisboa rumo a Angola, foi a 28Mai1961 e a viagem no Navio Mercante "Niassa"; após os primeiros momentos a bordo, constatou-se que os alojamentos eram insuficientes e maus, nomeadamente do ponto de vista higiénico; a viagem foi praticamente de enjoos durante os quase 12 dias de viagem.
As causas dos enjoos:
Todos nós sabemos que no fundo do ouvido encontra-se um órgão minúsculo que nos dá o sentido do equilíbrio.
A bordo de um navio sacudido pelas ondas, esse órgão fatiga-se e os passageiros experimentam uma espécie de vertigem e enjoo causados pela falta de equilíbrio... e também de inquietação.
No mar essas causas são complexas, mas provêm principalmente de uma irritação anormal do ouvido interno - falta de equilíbrio -, associada aos puxões das vísceras ocasionalmente pelo balançar do navio. Finalmente, o desregramento dos reflexos é tanto mais intenso quanto mais os elementos do psiquismo actuam.
Se o N/M "Niassa" era um cargueiro adaptado a camaratas transportando mais de dois mil militares nos seus porões, é sabido de antemão que alguma coisa não iria bater certo.
Senão vejamos:
O "restaurante" era ao ar livre, sem mesas nem cadeiras. Entregaram "à soldadesca" um prato e um talher, para toda a viagem, e à hora das refeições alguém trazia uma terrina com comida mal confeccionada. Uma secção, sentava-se no chão, à volta da terrina e tentava enganar o estômago. Posteriormente ainda tinha que lavar o prato, só que nem sempre com água doce porque essa escaceava, inclusive, para tomar banho.
Nos porões onde estavam instalados os beliches e nas casas de banho o cheiro nauseabundo devido à vaga de sensação de desconforto e das vomições era insuportável, as temperaturas eram muito elevadas e o espaço era de uma exiguidade inexplicável.
Mais palavras para quê?
Nem sequer vale a pena falar de inquietação, psiquismo, etc. para justificar o motivo dos enjoos que afectou "todo o mundo".

Curto período de férias

Posteriormente seguiu-se um curto período de férias destinado a licença para deslocação a casa e, obviamente, fazer a despedida da família para um período de 2 anos para aqueles que tivessem a sorte de regressar.

Episódio avulso, que escrevi para a “história” da Companhia, que está a ser preparada pelo meu amigo António Nobre de Campos (NOCA), ex-Alferes Miliciano:
“Ida de férias
A preparação, formação e instrução da CC115, demorou apenas uns escassos dias antes da partida para Angola.
Com o passaporte de férias e a guia de transporte dos Caminhos de Ferro nas mãos de cada um dos militares, não havia tempo a perder em direcção à terra da sua naturalidade. Nem sequer foi necessário dar a ordem de: “aos seus destinos… marche!!!”.
O grupo de alentejanos, que espontaneamente se formou e onde eu também me incluía, seguiu de comboio de Mafra até Lisboa (Rossio). Ao chegar a Lisboa, já de noite, dirigiu-se à Estação Fluvial do Terreiro do Paço, a fim de fazer a travessia, de barco, para o Barreiro donde seguiria para Beja. Só que, a estação estava a encerrar naquele preciso momento.
Muito embora no verso do Bilhete de Identidade Militar constasse: “…não pode vaguear pelas ruas depois do recolher; não deve frequentar bairros ou locais que pela sua natureza e costumes possam prejudicar os seus brio e decoro militares…”, o estatuto de mobilizado já permitia andar por ali sem que a Polícia Militar chateasse…
Decisão do grupo: “deixar as maletas de cartão numa dependência do cais e ir dar uma volta!...” Escusado será dizer que o grupo apontou em direcção ao Bairro Alto, mais tarde ao Martim Moniz, direccionou nos sentidos Intendente e Mouraria; enfim, passou por todo o lado onde havia casas de diversão nocturna que, diga-se de passagem, eram às dezenas nesse tempo, até porque estávamos no início do ano de 1961 e essas tais casas de divertimento diurno/nocturno… viriam somente a encerrar no final do ano de 1962. Em suma: O grupo deambulou por todo o Bairro Alto, desceu até à zona da Mouraria e suas imediações e andou por ali até altas horas da madrugada, isto é, até ao encerramento das casas, creio que até às cinco horas da madrugada; entretanto, dado o avançado da hora, as pensões e afins tinham também encerrado. Sim senhor! E agora? Onde é que o grupo iria descansar por algum tempo? Interrogávamo-nos!
Eu, que conhecia perfeitamente aquela zona, por ter frequentado a recruta ali perto, no Batalhão de Telegrafistas, sabia de uma escadaria de madeira no interior de um prédio habitado, o nº. 8, ao lado da actual Casa dos Bicos, no Largo do Terreiro do Trigo, que não tinha portão de entrada, nem de saída, subia-se até um 3º ou 4º. Andar e dali dava acesso directo a uma rua a meio da encosta do Castelo de S. Jorge, o que facilitava os soldados na ida para o quartel sem terem necessidade de ir dar uma volta tão grande!.. para contornar todo aquele casario.
A decisão estava tomada. Seria mesmo ali que iríamos aguardar que a estação abrisse, até porque aquele local, embora não fosse iluminado, situava-se a uns escassos 100 metros da estação onde tínhamos deixado as malas.
Entramos, sentámo-nos nos degraus da escada, encostámo-nos uns aos outros e toca a dormitar… De quando em vez, éramos acordados pelos residentes do prédio que entravam ou saíam de suas casas; mas nós um pouco estremunhados lá facilitávamos a passagem às pessoas que, diga-se em abono da verdade, até foram extremamente simpáticas para connosco. Todavia não há bela sem senão; acordávamos frequentemente cheios de frio devido à passagem de uma grande corrente de ar que ali se fazia sentir, o que teve na origem de umas belas constipações, como é óbvio. Chegada a hora de abertura da bilheteira, lá vai o grupo, às tossidelas, receber as maletas e seguir em direcção ao seu Alentejo.
Até dava para cantarolar:
O Alentejo é que é, o celeiro da Nação; nós somos alentejanos, somos da terra do pão.
Também não faltou: “Eu ouvi o passarinho”, e, lá vai ele!...

I (VIII)

Alentejo quando canta,
Tem tudo à base da solidão;
Traz um nó na garganta,
E um sonho no coração.

II (V, XI)

Eu ouvi o passarinho,
Às quatro da madrugada;
Cantando lindas cantigas,
À porta da sua amada.


III (VI, IX, XII, XIII, XIV)

Por ouvir cantar tão bem,
A sua amada chorou;
Às quatro da madrugada,
O passarinho cantou.

IV (X)

Alentejo terra rasa,
Toda coberta de pão;
As tuas espigas doiradas,
Lembram mãos em oração.

Manuel Valadas Horta
Ex. 1º. Cabo radiotelegrafista”

Composição do Batalhão 114

Entretanto na Escola Prática de Infantaria – Mafra, era preparada e formada a Companhia de Caçadores 115, tendo como Comandante o Capitão Alípio Tomé Falcão e como 2º. Comandante o Tenente Cipriano Pinto que, durante uns escassos dias, ministraram instrução ligada à táctica e técnica da guerra subversiva, a qual, dado o pouco tempo disponível, não foi muito além da preparação física, de tiro, de emboscadas, contra emboscadas, golpes de mão e de operações nocturnas.

Composição do Batalhão 114 e respectivas Unidades Mobilizadoras:
· Comando e Companhia 114
- R. I. 1 − Amadora
· Companhia de Caçadores 115
- E. P. I. − Mafra
· Companhia de Caçadores 116
- R. I. 5 − Caldas da Rainha
· Companhia de Caçadores 117
- R. I. 6 − Porto

Abril de 1961

Abr1961 − O que os Órgãos de Comunicação Social normalmente noticiavam:

“Os guerrilheiros da UPA, chefiados por Holden Roberto, que em 15 de Março de 1961, iniciaram as suas hostilidades e que sempre reclamaram a vitória da barbárie, actuavam aos gritos de UPA, UPA, mata, mata. Com catanas e canhangulos que carregavam à base de fósforos que adquiriam em grandes quantidades, desfaziam, misturavam com pólvora, enchiam os pipos dos próprios canhangulos e progrediam numa acção devastadora e a uma velocidade vertiginosa.
Neste cenário cruel, apareceram homens degolados, cabeças espetadas em estacas, mulheres esventradas com paus aguçados cravados no sexo e crianças esquartejadas ainda nos berços.
Em pouco tempo a UPA ocupa a grande parte do Norte de Angola sem a protecção da tropa local. O rasto de sangue estendia-se quase até Luanda.
Em Nambuangongo não sobreviveu ninguém e aquela zona foi passada a pente fino pela guerrilha.
Em Luanda, foram dados os primeiros passos no sentido de fazer face ao que se estava a passar, procedera-se à formação de alguns grupos de civis que se juntaram aos cerca de 1 500 efectivos militares mal preparados, para ajudar na defesa das fazendas e das vilas cercadas pelos rebeldes e na procura de sobreviventes.
Pelas picadas assistia-se a cenários de terror, de destruição de roças e de assassinatos de cerca de dois milhares de colonos.”


Perante este espectro de guerra e, ainda no último terço do mês de Abril, quando os soldados idos da Metrópole desembarcaram em Luanda, ainda havia vilas inteiras cercadas e já quase sem abastecimentos. Eram os civis que faziam a sua auto defesa. Quando o exército começou a avançar, para reocupar as zonas ocupadas, a frente era tão grande que não sabia para onde se virar; em Nambuangongo o exército só desocupou aquela área passados quase 6 meses.
Por cá contavam-nos histórias horripilantes do que estava a acontecer no Norte de Angola.